O jornalista-objeto e a despedida

O semestre chegou ao fim e, junto com ele, o trabalho coletivo de produção deste blog.

Aqui nos propomos a abordar produção, distribuição e consumo de notícias através de dispositivos móveis, relacionando o tema às leituras de diversos autores na disciplina Comunicação e Tecnologia, sob orientação do professor André Lemos e de seu tirocinista Leonardo Pastor, durante o semestre 2016.1 na Faculdade de Comunicação da UFBA.

Lá no início, apresentamos o jornalismo móvel, segundo Fernando Firmino, como a “utilização de tecnologias móveis digitais e de conexões de redes sem fio pelo repórter na prática jornalística contemporânea visando ao desenvolvimento das etapas de apuração, produção e distribuição de conteúdos do campo ou de transmissão ao vivo” (2015, p. 11). Seguimos com essa definição em mente enquanto tentamos relacioná-la a conceitos como cibercultura, virtual e atual, narrativa transmídia, redes sociais, vigilância, entre outros.

A técnica, o jornalismo e o homem-objeto. Ou a teoria ator-rede aplicada ao jornalismo.

Concluímos este semestre com uma nova percepção em relação aos objetos e a não neutralidade destes. Defendemos em muitos posts aqui como o uso de dispositivos móveis modifica o trabalho do jornalista, bem como o consumo de notícias. Mas fomos além. Hoje compreendemos como a técnica e o domínio de tecnologias (de papel e caneta ao uso de gravador e câmeras) formam o que conhecemos como jornalista.

O jornalista só é jornalista pois existem as mídias nas quais a notícia é circulada (fala ou papel ou internet, por exemplo), as empresas jornalísticas, as leis, os métodos de apuração e pesquisa e etc. O jornalista não é apenas um ser humano, mas uma complexa rede formada pelos elementos citados e muitos outros.

“Como agiria o “jornalismo” sem os editores, os repórteres, as agências de notícias, as indústrias culturais, os professores e escolas de comunicação, as empresas publicitárias, os distribuidores, o jornaleiro, o papel jornal, a banca de jornal, os computadores, os telefones, o celular, o fax e… a internet e suas expressões como o Twitter e a Web? Não caberia investigar caso a caso? Como pode um jornalista pensar e agir sem outros jornais, jornalistas, empresas, indústrias, publicidade, computadores, telefones, satélites etc.? Quem faz a ação é um sujeito não-híbrido livre de relações não instrumentais? Podemos separar de um lado “o jornalismo” e do outro as “ferramentas e meios”?” (Lemos, 2011)

Repetimos, então, o que falamos aqui: o jornalismo (e todas as coisas que conhecemos) só existem da forma como conhecemos porque homens e objetos se relacionam o tempo todo. Do mesmo modo, os objetos sozinhos não podem fazer jornalismo. É também por isso que não basta ter uma ferramenta como o celular para ser jornalista. Existem diversos atores associados à função. Além disso, objetos e humanos ora podem representar ação, ora podem ser mediadores.

Todos os atores dessa rede (humanos ou não) são influenciados uns pelos outros e isso faz com que ela se modifique com o passar do tempo. Novos processos surgem, ressurgem, tomam para si elementos de outros e se remodelam continuamente.

Até mais

Assim, com essas reflexões e acreditando que as leituras do semestre nos permitem, hoje, enxergar o mundo, nossa profissão e suas relações de uma nova forma em relação a que víamos antes, nós (Carla Letícia, João Bertonie, Michelle Oliveira, Saulo Miguez e Talita Queiroz) nos despedimos e esperamos que as palavras deixadas aqui possam, de alguma forma, gerar novos debates na imensa rede chamada internet (e com a certeza de que o que produzimos aqui é resultado de uma rede complexa formada pelas aulas frequentadas, pelos autores lidos, pelas pesquisas realizadas, pelos filmes assistidos etc etc etc…).

O híbrido humano/objeto e a produção de conteúdos jornalísticos

Como já foi abordado em outras oportunidades neste espaço, a produção de conteúdos (sobretudo imagens) pelos dispositivos móveis vem trazendo profundas mudanças na difusão de notícias.

Nesta postagem, será abordada a relação de hibridismo que nasce a partir do momento que o cidadão passa a usar o seu celular inteligente como ferramenta actante na rede.

Citando o embate existente entre os defensores e opositores do porte de armas, Latour (2001) apresenta os argumentos materialista e sociológico, atribuídos respectivamente aos opositores e defensores do porte, para ilustrar o quão complexa é a relação entre homem e objeto.

“‘Armas matam pessoas’, é o slogan daqueles que procuram controlar a venda livre de armas de fogo. A isso replica a National Rifle Association (NRA) com outro slogan: ‘Armas não matam pessoas; pessoas matam pessoas’. O primeiro é materialista: a arma age em virtude de componentes materiais irredutíveis às qualidades sociais do atirador. (…) A NRA, por seu turno, oferece (o que é muito divertido, dadas as suas convicções políticas) uma versão sociológica que costuma ser associada à Esquerda: a arma não faz nada sozinha ou em consequência de seus componentes materiais. A arma é uma ferramenta, um meio, um veículo neutro à vontade humana”.

Latour (2001), por sua vez, é avesso aos pensamentos extremistas apresentados pelas correntes pró e contra o armamento e defende a ideia de que da relação entre homem e objeto, nesse caso a arma de fogo, surge um terceiro agente que produz ações que não o faria sem uma arma, ao mesmo tempo em que imprime determinado sentido ao objeto.

Algo do tipo: a arma, que foi pensada e projetada para cumprir uma função específica, necessita da ação humana (disparar o gatilho) para fechar o ciclo. De modo que o pesquisador atribui responsabilidades tanto ao objeto quanto ao humano que o manuseou.

Substituindo as armas pelos smartphones e o assassino em potencial pelo aspirante a jornalista, chegamos a uma equação semelhante: o aparelho por si só não é capaz de produzir conteúdos, em contrapartida, o humano que o manuseia de forma eficaz tem maior possibilidade de compartilhar fatos e questões na rede e com isso ampliar a comunicação.

A difusão de conhecimento, aliada à evolução dos smartphones no que diz respeito à produção de conteúdos, vem provocando, inclusive, atritos entre profissionais do campo da comunicação que utilizam equipamentos profissionais e os “amadores” que filmam, fotografam e editam com seus celulares.

Em setembro de 2015, o fotógrafo Lee Morris publicou um vídeo mostrando como é possível produzir fotos tão boas quantos as tiradas por câmeras DSLR, usando um iPhone 6s.

A publicação gerou polêmica entre os pares de Morris e despertou a ira de alguns fotógrafos mais tradicionais, que não enxergam no “amadorismo” dos celulares o capital social necessário para se equiparar às máquinas profissionais.

Assista ao vídeo:

Boa parte dos críticos das chamadas novas ferramentas de produção de conteúdos, no entanto, desconsidera o fato do produto final dos conteúdos de comunicação serem, nada mais nada menos, do que uma construção da realidade.

Ou seja, é uma leitura que o ator faz do ambiente que vem acompanhada das características (e limitações) do suporte que ele utiliza; seja uma câmera profissional ou um simples celular.

Desse modo, não há isenção, imparcialidade ou qualquer outra coisa que possa suscitar qualquer tipo de neutralidade em relação ao fato apresentado. A forma como é contada essa história, por sua vez, precisa obedecer uma construção convincente. E isso, mais uma vez, independe do objeto utilizado. Ao contrário, está muito mais ligada ao ator que opera o suporte.

Objetos Vs Rede Vs Relações Humanas

Para Lemos (2013), objetos como os smartphones em uso estão inseridos no que ele chama de “Internet  das  Coisas”, ou IoT, que nada mais é do que o “conjunto de redes,  sensores,  atuadores e objetos  ligados por  sistemas  informatizados  que  ampliam  a  comunicação  entre  pessoas  e  objetos e  entre os  objetos  de  forma autônoma,   automática   e  sensível  ao  contexto”.

De acordo com o pesquisador, a partir do momento que os objetos mudam ao ganhar funções infocomunicacionais (fotografar, por exemplo), as relações entre eles e os humanos também mudam, o que justifica as tensões entre os que defendem a utilização dos celulares para fins jornalísticos e aqueles contrários.

Referências:

Latour, B. Um coletivo de humanos e não-humanos (cap. 6). In: _____. A esperança de Pandora: ensaios sobre a realidade dos estudos científicos. Bauru: Edusc, 2001.

Lemos, A. Internet das coisas (cap. 6). In: _____. A comunicação das coisas: teoria ator-rede e cibercultura. São Paulo: Annablume, 2013.

A realidade construída pelos jornalistas

A forma como as pessoas se comunicam vem sendo alterada ao longo do tempo de acordo com as novas tecnologias que surgem. Antes, as pessoas esperavam dias a chegada de uma carta para se atualizarem sobre a vida de algum parente que morava em outra cidade ou até mesmo para saber algo sobre a sua própria cidade era necessário esperar a informação passar pelo boca-a-boca.

Esse processo passou por uma drástica mudança com a chegada do rádio, da televisão e do jornal impresso. Essas mídias são consideradas como mídias massivas. Utiliza-se aqui o conceito de mídia massiva, de acordo com André Lemos

“Por função massiva compreendemos um fluxo centralizado de informação, com o controle editorial do pólo da emissão, por grandes empresas em processo de competição entre si, já que são financiadas pela publicidade. ” (Lemos, 2007)

Então, nessa fase a informação ganhou uma mobilidade maior, porém, era unidirecional e controlada por grandes corporações. De modo que não existia uma interação com telespectador.

cherge1

Com a chegada das novas tecnologias como internet, dispositivos móveis etc, entramos para uma fase de mídias pós-massivas que, ainda segundo Lemos

“As mídias de função pós-massiva, por sua vez, funcionam a partir de redes
telemáticas em que qualquer um pode produzir informação, ‘liberando’ o pólo
da emissão, sem necessária mente haver empresas e conglomerados econômicos por trás.” (Lemos, 2007)

Agora, a forma de produzir informação se altera completamente. Além da rapidez de disseminação, ainda temos o fato de que qualquer pessoa pode produzi-la. Hoje, temos um cenário em que as mídias massivas e pós-massivas coexistem e é exatamente aí que o jornalista vai obter um novo papel, o de construtor da realidade.

hibrido

Cenário híbrido

Por que essa ideia de construir uma realidade?

Antes da cultura massiva, já era difícil relatar um ocorrido sem que este sofresse alterações ao longo da comunicação. Então, em pleno século XXI isso se tornou impossível.

Um fato pode ser descrito de várias maneiras e cada relato causará um impacto diferente nas pessoas. De forma que a realidade será lida de modo diferente por cada pessoa. O veículo que serve de fonte de informação, bem como o canal, também ajudam a moldar a realidade para cada espectador.

Segundo Penna (2010, apud CASTRO 2013) o Jornalismo “está longe de ser o espelho do real. É, antes, a construção de uma suposta realidade”. O jornalista vai construir uma informação de acordo com aquilo que lhe é conveniente. E para um leitor que leia apenas essa versão, terá a sua realidade construída a partir de um único ponto de vista.

Existe um lado perigoso

O fato de qualquer pessoa poder veicular uma notícia, pode ser algo muito perigoso. Existe uma necessidade de mover a informação a todo tempo, seja sobre sua vida pessoal, sobre algo injusto que aconteceu dentro do ônibus ou até mesmo um acidente que você presenciou.

A rapidez com que isso ocorre se deve graças aos territórios informacionais que, de acordo com Lemos (2007) se manifesta, por exemplo, quando uma pessoa se conecta a uma rede wi-fi de um parque e passa a navegar por outras zonas que estão além daquela fisicamente delimitada.

Hoje, quase todos os lugares possuem territórios informacionais. Isso permite ao jornalista ter um poder de alcance muito grande e muitas vezes este está tão preocupado em passar a informação que não se atenta em analisá-la com mais criticidade.

O que aconteceu, por exemplo, no caso “Escola Base”. De acordo com Luis Nassif do jornal de todos os brasis, os donos da Escola Base Icushiro Shimada e Maria Aparecida Shimada foram acusados de abusarem sexualmente dos alunos da escola. Sendo que na verdade, eles eram inocentes.

escola

Fotos da escola após a publicação da matéria

Os donos da escola chegaram a ser presos e a instituição foi atacada. O fato deles terem sido declarados inocentes, não irá apagar todo o sofrimento passado pela família, que poderia ser evitado caso houvesse mais cuidado na apuração. Essa foi uma realidade construída sem provas, que causou danos irreparáveis para a vida dessas pessoas.

Para saber mais da história clique AQUI.

Conclusão

Devido ao novo cenário híbrido e aos territórios informacionais, a informação alcança pessoas conectadas em todo o mundo, tornando a mobilidade informacional incontrolável. O jornalista se apropria dessa rede para construir uma nova realidade onde quer que ele esteja, sem muitas vezes tomar o cuidado de analisar com criticidade a situação.

Referências

Lemos, A. Cidade e mobilidade.Telefones celulares, funções pós-massivas e territórios informacionais. MATRIZes, v. 1, n. 1, 2007. Disponível em: http://www.facom.ufba.br/ciberpesquisa/andrelemos/Media1AndreLemos.pdf

Castro, A. Teorias do Jornalismo, Universidade e Profissionalização: Desenvolvimento Internacional e Impasses Brasileiros. 2013. Disponível em: http://www.bocc.ubi.pt/pag/castro-alexandre-2013-teorias-jornalismo.pdf

Nassif, Luis. O caso escola base, 20 anos depois. O Jornal de Todos os Brasis. 2014. Disponível em: http://jornalggn.com.br/noticia/o-caso-escola-base-20-anos-depois

 

Posso tirar uma foto?

Uma mãe deixa seu bebê de poucos meses deitado no chão de um aeroporto, enquanto encara distraída o celular, nos EUA. No México, uma mulher comprometida beija outro rapaz numa festa de despedida de solteira. Estes dois eventos não gerariam grandes comoções ou consequências graves se não fossem alardeados nas redes sociais com a ajuda de dispositivos móveis. O primeiro caso se trata de uma mãe que foi duramente criticada pela aparente displicência para com o filho na internet — e só mais tarde conhecemos o contexto da história. O segundo, de um caso privado de adultério que resulta no fim de um relacionamento.

A constante vigilância na qual estamos naturalizadamente submetidos ganha nova força com a presença atuante das redes sociais em articulação com os dispositivos móveis. Para além do controle governamental, há um efetivo entendimento de que, com a liberação do ponto de emissão, todos podem controlar, vigiar e, eventualmente, punir. Afinal, a exposição de qualquer ato ocorrido em zona pública está a um toque na tela do smartphone: a compreensão de que tudo pode ser compartilhado, o entendimento da internet como um repositório do mundo, o fácil acesso aos acontecimentos de interesse público e minúncias da vida privada, uma série de fatores contribui para um controle mútuo e recíproco de uma sociedade de ações mediadas por tecnologias móveis. Isso afeta, como vimos, no jornalismo: agora todos podem ser cães de guarda, e não apenas do Estado, mas de todas as ações de possível visualização. Para o bem e para o mal.

“A mobilidade por redes ubíquas implica em maior liberdade informacional pelo espaço urbano mas, também, uma maior exposição à formas (sutil e invisíveis) de controle, monitoramento e vigilância” (Lemos, 2009). Privacidade e anonimato estão ameaçados no cenário dos dispositivos móveis.

E o jornalista?

Neste contexto, qual o papel do jornalista, afinal? Certamente, por questões éticas, estaria o trabalho de proteger essas esferas. Checar a veracidade dos fatos, tarefa que pode ser facilitada por meio dos dispositivos móveis, deveria ser o mandamento número um. Infelizmente, não é o que temos visto. Jornalistas e meios de comunicação reproduzem boatos como se já tivessem sido comprovados. Ajudam a expor pessoas que sofrerão os mais diversos julgamentos na internet, independentemente do fato ser verídico ou não (sendo que nem a veracidade justificaria certos posicionamentos).

A pior parte nessa história, passado todo o constrangimento inicial, é que tudo que está na internet deixa rastros (BRUNO, 2012). Pessoas que têm suas vidas expostas na internet em algum momento, ainda poderão ser afetadas por esses problemas por muitos e muitos anos.

O lado positivo

Por outro lado, os rastros deixados na internet possibilitam ao jornalista realizar trabalhos que antes não eram possíveis. O jornalismo de dados tem atraído tanta atenção ultimamente que diversos manuais, cursos e debates têm sido produzidos para tentar fazer com que os jornalistas saibam aproveitar os dados da melhor maneira possível, para apurar e apresentar fatos.

Como sempre, não se pode afirmar que a tecnologia é positiva ou negativa. Os dispositivos de monitoramento e controle podem ser utilizados de forma benéfica ou maléfica. Cabe a nós cobrarmos pela transparência e pelo direito de escolha e privacidade, por exemplo.

Referências

BRUNO, Fernanda. Rastros digitais sob a perspectiva da teoria ator-rede. Porto Alegre, v. 19, n. 3, pp. 681-704, 2012.

LEMOS, André. Mídias locativas e vigilância: sujeito inseguro, bolhas digitais, paredes virtuais e territórios informacionais. Curitiba: PUCPR. 2009.

Manual de Jornalismo de Dados. Disponível em: < http://datajournalismhandbook.org/pt/index.html >.Acesso em: 23 set. 2016.

http://noticias.uol.com.br/opiniao/coluna/2016/03/14/vigilancia-na-internet-nao-reduz-crimes-apenas-restringe-liberdade.htm

http://www.cartacapital.com.br/blogs/outras-palavras/a-internet-tragada-pelo-capitalismo-de-vigilancia

http://extra.globo.com/noticias/viral/mae-deixa-bebe-no-chao-fica-olhando-celular-em-aeroporto-foto-viraliza-19903397.html

http://blogs.oglobo.globo.com/pagenotfound/post/mulher-beija-outro-na-despedida-de-solteira-video-viraliza-e-casamento-e-cancelado.html

Sorria, você está sendo vigiado

Desde que se instituiu, o Jornalismo tem como uma das suas principais atribuições vigiar as falha da sociedade. O conceito da Imprensa Watchdog – o cão de guarda, um dos mais divulgados no estudo da comunicação, baseia-se na noção de fidelidade e proteção dos cães. É a representação do jornalista como um verdadeiro vigia social perante os desvios, as prepotências e as injustiças (Brun, 2011).

Para Brun (2011), a afirmação do conceito Watchdog provém da crise no sistema político. Em uma sociedade que diariamente é colocada frente a frente com escândalos e corrupção é natural que a imprensa se posicione ou seja posicionada como uma instituição vigilante da máquina pública.

Na sociedade contemporânea, cada vez mais inundada pelos dispositivos móveis de geração de conteúdo e pela rápida disseminação desses conteúdos pelas redes sociais, o exercício da vigilância deixou de ser monopolizada pela mídia corporativa e passou a ser um atributo muitos cidadãos comuns. De modo que hoje cada pessoa munida de um smartphone pode ser um vigia.

As teletelas, exemplificadas pelo ficcionista George Orwell na obra 1984, se multiplicaram e assumiram diferentes configurações nas mãos de pessoas com diferentes olhares e interesses, mas com o objetivo comum ser um membro ativo na disseminação de informações.

1984

Cena de 1984 (Foto: Reprodução)

O contexto vai ao encontro da ideia de Deleuze (1992) quando ele diz que as sociedades de controle operam por máquinas de informática e computadores, cujo perigo passivo é a interferência, e o ativo a pirataria e a introdução de vírus.

Uma infinidade de flagrantes registrados por pessoas comuns diariamente viajam pela internet. Algumas dessas situações viralizam a ponto de provocarem discussões sérias, ou nem tanto, sobre o assunto e em casos mais extremos levar pessoas a serem execradas no ambiente digital.

Em agosto deste ano, a foto de uma mulher com o seu filho recém-nascido no aeroporto causou revolta nas rede sociais. O motivo foi o fato da criança estar deitada no chão enquanto a mãe mexia no aparelho celular. A imagem, que foi feita por um usuário da rede social Snapchat, rapidamente colecionou milhares de curtidas e compartilhamentos.

bebe-nochao

“Quem deixa um bebê no chão”, diz a legenda (Foto: Reprodução)

Outro caso que chamou a atenção aconteceu com o ator José de Abreu. No mês de abril, o artista estava em um restaurante em São Paulo e, ao ser provocado pelo seu posicionamento político, reagiu cuspindo nos agressores. Mais uma vez, a cena foi filmada, compartilhada e rapidamente repercutiu.

Veja vídeo:

E um exemplo mais recente aconteceu no Japão, quando um operador de trem-bala foi fotografado com os pés para cima enquanto pilotava a composição, a mais de 280 km/h. Após a viralização da imagem, que chegou ao conhecimento da direção dos administradores do serviço, o homem foi suspenso das suas atividades.

trem

Foto: Reprodução/Twitter

Nas três situações citadas, pode-se dizer que houve  o exercício da função do jornalista por não profissionais. O trabalho, por sua vez, foi feito de modo incompleto, uma vez que o bom exercício jornalístico manda que ambas as partes envolvidas na notícia sejam ouvidas. O que o Manual de Redação do Jornal Folha de S.Paulo chama de cruzamento de informação e outro lado.

“Quando o repórter dispõe de uma informação que possa ser considerada prejudicial a uma pessoa ou entidade, é obrigatório que ele ouça e publique com destaque proporcional a versão da parte atingida”, diz o Manual.

Além disso, outro fato ainda mais grave decorrente dessa publicação de conteúdos de forma pouco criteriosa, é a replicação desses conteúdos pela imprensa formal, que ocorre também sem apuração. O que fere os princípios da profissão.

Referências
Brun, E.F; O cão de guarda da sociedade. 15 de março de 2011. Ed: 633. In: http://observatoriodaimprensa.com.br/diretorio-academico/o-cao-de-guarda-da-sociedade/

Orwell, G. 1984. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2005. (capítulo 1)

Deleuze, G. Post-Scriptum sobre as sociedades de controle. In: _____. Conversações: 1972-1990, Editora 34, pp. 219-226, 1992. Disponível em: http://www.portalgens.com.br/filosofia/textos/sociedades_de_controle_deleuze.pdf

Manual de redação: Folha de S.Paulo. 19ª ed. – São Paulo: Publifolha, 2013.

 

O hibridismo homem-objeto e o jornalismo

O sujeito desconectado do objeto nunca existiu. O Homo habilis, nosso ancestral que viveu há aproximadamente 2,1 a 1,5 milhões de anos atrás, é conhecido justamente por sua habilidade para confeccionar e utilizar diversas ferramentas que possibilitaram, muitas vezes, sua sobrevivência. Fazendo com que, inclusive, mutações biológicas alterassem seu organismo com o passar do tempo. A evolução.

Cartas foram as ferramentas que, muitas vezes, permitiram a mudança do curso de guerras. Ou mesmo foram parte da causa de rebeliões. Telefones, rádios, celulares etc. Todos esses objetos alteraram a forma como vemos e lidamos com o mundo, socialmente, e a forma como realizamos nossas atividades, individualmente ou não.

Se você duvida, faça um teste básico: se usa celular touch screen há algum tempo, experimente teclar em um celular mais antigo, como o qwerty. Estranho ter que apertar teclas, não? Será que sempre foi preciso tanta força para mandar um sms?

O hibridismo no jornalismo

Isso não é diferente com o jornalista. Quem se espanta com o jornalismo produzido através de dispositivos móveis deve saber que nunca existiu jornalismo sem objeto. Papel, rádio, tv, internet e a cada dia uma nova descoberta. Sem eles, o que seria um jornalista? Ou, ainda, o jornalismo em si? Nem precisa tentar citar a fala. A língua, o idioma, também é um instrumento.

“Como agiria o “jornalismo” sem os editores, os repórteres, as agências de notícias, as indústrias culturais, os professores e escolas de comunicação, as empresas publicitárias, os distribuidores, o jornaleiro, o papel jornal, a banca de jornal, os computadores, os telefones, o celular, o fax e… a internet e suas expressões como o Twitter e a Web? Não caberia investigar caso a caso? Como pode um jornalista pensar e agir sem outros jornais, jornalistas, empresas, indústrias, publicidade, computadores, telefones, satélites etc.? Quem faz a ação é um sujeito não-híbrido livre de relações não instrumentais? Podemos separar de um lado “o jornalismo” e do outro as “ferramentas e meios”?” (Lemos, 2011)

O jornalismo é toda uma rede híbrida de atores humanos e não-humanos, como os citados acima. Ele só existe da forma como conhecemos porque homens e objetos se relacionam o tempo todo. Do mesmo modo, os objetos sozinhos não podem fazer jornalismo. É preciso que existam atores humanos no processo. É também por isso que não basta ter uma ferramenta como o celular para ser jornalista. Existem diversos processos associados à função. Além disso, objetos e humanos ora podem representar ação, ora podem ser apenas mediadores.

Todos os atores dessa rede (humanos ou não) são influenciados uns pelos outros e isso faz com que ela se modifique com o passar do tempo. Novos processos surgem, ressurgem, tomam para si elementos de outros e se remodelam continuamente (seguimos aqui um pouco do que se vê segundo os Estudos Culturais).

O bom jornalismo móvel – o desafio de entender/dominar a rede

Segundo Lemos, um bom trabalho será resultado de boas associações que um sujeito – nesse caso, o jornalista – fizer de humanos e não humanos. Cabe a nós, jornalistas, então, procurar formas de aliar as práticas jornalísticas, as tecnologias, outros sujeitos para produzir a “boa notícia”.

O jornalismo não se faz sozinho

Atualmente, temos um ótimo exemplo de matérias que não teriam existido se não fosse os dispositivos móveis. Jornalistas que cobriram conflitos através de redes sociais, por exemplo, como já falamos aqui. Nesses casos, os dispositivos móveis estão sendo atores importantes e ativos para a associação final no jornalismo: a notícia.

Referências

LEMOS, André. Things (and People) Are The Tools Of Revolution!. 2011. Disponível em http://andrelemos.info/things-and-people-are-the-tools-of-revolution/
HOMO habilis. Disponível em: http://www.avph.com.br/homohabilis.htm. Acesso em: 09 set. 2016.

Intimidade na web e jornalismo

A evolução do serviços de internet, a difusão do hacktivismo e a expansão das redes sociais trouxe à tona, dentre tantas outras coisas, duas questões que têm cada vez mais pautado os veículos noticiosos.

A primeira delas é o vazamento de vídeos, fotos, conteúdos em geral de caráter privado para o âmbito público. O outro ponto é o registro e publicação do dia a dia de celebridades (atores, músicos, artistas, pessoas públicas) feito por eles próprios e em seus perfis digitais.

Concomitante a isso, o uso em escala cada vez maior dos dispositivos móveis, sobretudo smartphones, tem favorecido a disseminação destes conteúdos e, consequentemente, obrigado os veículos de comunicação a repensarem a hierarquização das suas pautas.

Vazaram na web

Amadeu (2010) define ciberativismo como sendo um conjunto de práticas em defesa de causas políticas, socioambientais, sociotecnológicas e culturais, realizadas nas redes cibernéticas, principalmente na Internet. Os adeptos desta prática, por sua vez, visam o bem comum da sociedade, ainda que para fazê-lo algumas normas, em certos casos, precisem ser subvertidas.

Na contramão desse grupo do bem, no entanto, vem uma equipe que tem se utilizado das técnicas do hacktivismo para invadir a privacidade alheia e expor a intimidade de muitos usuários da rede.

Um caso de grande repercussão ocorreu com a atriz Carolina Dieckmann, quando fotos dela nua foram ilegalmente publicadas na web, em maio de 2012. A atriz chegou a ser ameaçada de extorsão. O inquérito policial concluiu que a caixa de Carolina foi violada por hackers.

A grande visibilidade pública do caso contribuiu para que em novembro daquele mesmo fosse aprovada a Lei Nº 12.737, conhecida como lei “Carolina Dieckmann”, que dispõe sobre a tipificação criminal de delitos informáticos.

Um episódio mais recente envolvendo a divulgação indevida de conteúdos pelo ambiente virtual ocorreu no Rio de Janeiro, quando uma adolescente de 16 anos foi violentada por diversos homens e o crime foi gravado por celular e difundido na rede.

Apesar de haver uma diferença nos casos, em ambos os conteúdos foram divulgados maciçamente pela internet, sobretudo, via smartphones, e as imagens tinham por objetivo depreciar as pessoas filmadas. De modo que a ação desses disseminadores se encaixa na ideia pejorativa de hacker construída ao longo da história da internet (Amadeu, 2010).

Soft News

Muitas personalidades que conquistaram visibilidade fora da web, se utilizam desse capital social para estabelecer contato com o público pela rede e assim alavancar suas imagens no ambiente virtual. Essa interação é, por sua vez, convertida em atenção pública, que é a unidade monetária da mídia.

Um bom exemplo dessa matemática é a atriz e modelo Luana Piovani.  Famosa pelas declarações fortes, ela costuma postar em seus perfis digitais vídeos gravados por aparelhos celulares relatando o seu dia a dia, ou mesmo fazendo desabafos a respeito de determinado tema, que, na maioria das vezes, só diz respeito a ela.

Assista um desses vídeos

Essas postagens, devido ao grande número de seguidores que a atriz possui, rapidamente ganham milhares de visualizações e passam a figurar entre os assuntos mais comentados e compartilhados da rede. De forma que os portais de notícia passam a pautá-lo.

Luana Piovani posa animada com os gêmeos Liz e Bem: ‘1 aninho’

Separação do casal JN

Esta semana, além da finalização do processo de impeachment, a separação do casal William Bonner e Fátima Bernardes ocupou as timelines e espaços de maior destaque nos portais de notícia.

Além da surpresa da separação em si, causou espanto também o fato deles terem anunciado o término do relacionamento de 26 anos pela rede social Twitter. Algo que chegou a soar como piada.

bonner

Imagem: Reproodução/Twitter

Esse caso, talvez seja a melhor representação desse novo momento jornalístico, onde redes sociais, uso de dispositivos móveis e o boom das soft news se aliam para compor o novo filão das empresas de comunicação.

Referências:

Recuero, R., Redes Sociais na Internet., Porto Alegre, Sulina, 2009. (Cap. 1)

Amadeu, S. Ciberativismo, cultura hacker e o individualismo colaborativo. Revista USP, n. 86, p. 28-39, 2010. Disponível em:http://www.revistas.usp.br/revusp/article/view/13811/15629

MASSUCHIN, M. G. ; CERVI, E. U. . Portais de conteúdo na web e temas locais: Estaria o internauta usando as novas ferramentas de comunicação para promover o debate político?. In: Alessandra Aldé; Jamil Marques. (Org.). Internet e Poder Local. 1ed.Salvador: EdUFBA, 2015, v. , p. 0-0.

 

 

Os problemas das mídias sociais

help“As mídias sociais deram o direito à fala a legiões de imbecis que, anteriormente, falavam só no bar, depois de uma taça de vinho, sem causar dano à coletividade. Diziam imediatamente a eles para calar a boca, enquanto agora eles têm o mesmo direito à fala que um ganhador do Prêmio Nobel.” A polêmica fala de Umberto Eco (1932 – 2016), autor italiano e pilar internacional de toda uma disciplina que marcou os estudos em Comunicação (a semiologia), foi dita após a cerimônia na Universidade de Turim na qual recebeu o título de doutor honoris causa em comunicação e cultura, em 2015. O autor de “O nome da rosa” (1980) já havia demonstrado seu descontentamento em relação às novas mídias outras vezes: em 2007, em entrevista para a Revista Época, afirmou que “os tablets são mais para entretenimento do que para estudo”, desprezando os e-books, ainda novidade no mercado editorial. Há certo conservadorismo e até mesmo algo elitista nesta posição (é de fato preciso ser um ganhador de um Nobel de Literatura para discutir romances?), mas a fala de Eco nos faz pensar nos problemas do uso corrente das mídias sociais, uma das mais proeminentes ferramentas de articulação e interação social na rede, e sua relação com o jornalismo móvel.

O que são mídias sociais?

Quando falamos de mídias sociais, falamos de ferramentas que servem ao compartilhamento e à criação colaborativa de informação dos mais diversos formatos. Blogs como este próprio, microblogs (como o Twitter e o Snapchat) e redes sociais (como o Orkut, o Facebook e o Google Plus) fazem parte deste universo, embora as classificações volta e meia se embaralhem. Garton, Haythornthwaite e Wellman (1997), citados por Raquel Recuero (2009, p. 15), definem as supracitadas redes sociais como uma rede de computadores que conecta uma rede de pessoas e organizações.

mIRC_-_canal_uberlandia1

O mensageiro do IRC, criado em 1988, com um design simples e um tanto rústico. Desenvolvido  em servidores na Universidade da Finlândia, o IRC foi um protocolo de comunicação e troca de arquivos muito importante nos anos 1990 (durante a Guerra do Golfo, em 1993, o IRC foi utilizado para divulgar notícias do Oriente Médio em tempo real). Ao fim do século, foi criado o mIRC, que possibilitava chats e conversas privadas, nas quais os usuários podiam se identificar com nicks e cores personalizados. (Imagem: Canal Tech)

Estas mídias podem se articular com o jornalismo móvel de várias maneiras: empresas jornalísticas podem se apropriar das redes para a realização de boletins ou debates (os debates da TV Folha, por exemplo, são transmitidos ao vivo pelo Facebook e costumam render bons números de visualizações, principalmente quando os convidados são personalidades polêmicas na web, como Sara Winter e Kim Kataguiri), as pessoas podem, independentes, noticiar acontecimentos in loco, fazendo, ou não, parte de uma organização informal, como no midialivrismo do Mídia Ninja etc.

Quem são os atores na rede?

Ao abordar a forte presença das representações de pessoalidades nas redes sociais (desconstruindo a concepção inicial de que, na internet, não é tão importante quem somos e onde estamos, mas o que dizemos), Recuero afirma que “é preciso colocar rostos e informações que geram individualidade e empatia na informação geralmente anônima do ciberespaço” (2009, p. 27). As redes sociais online marcam um tempo em que a anarquia e a liberdade já não são as características mais expressivas da rede, como se tinha anteriormente (hoje são os hacktivistas que defendem esta perspectiva).

Desde antes do que chamamos de redes sociais online há essa pessoalização da rede. O blog, cujo formato existe provavelmente desde 1997, por exemplo, é definido por Denise Schittine (2004, p. 60) como “uma adaptação virtual de um refúgio que o indivíduo já havia criado anteriormente para aumentar seu espaço privado”.

tumblr_mdveikLISk1qlevvpo2_500

Dirigido por David Fincher, A Rede Social (The Social Network, 2010) conta a história da origem do Facebook. No filme e na vida real, o site surgiu com o nome FaceMash, criado por Mark Zuckerberg com o algorítmo desenvolvido por Eduardo Saverin, com o intuito inicial de eleger as garotas mais atraentes de Harvard. Hoje, o Facebook é a mais popular das redes sociais online, reunindo mais de 1 bilhão de usuário ativos  pelo mundo. (Gif: Rebloggy)

Não parece uma definição muito diferente da concepção de redes sociais online mais recentes, como o Orkut e o Facebook, ambas criadas em 2004. Raquel Recuero põe em foco os atores sociais (ou melhor, as representações dos atores sociais), pessoas que atuam de forma a moldar as estruturas sociais, através da interação e da constituição dos laços sociais (2009, p. 25), pautando o permanente processo de construção e expressão de suas identidades no ciberespaço (p. 26).

O que são laços sociais?

Estes laços sociais, segundo Recuero, são formas mais institucionalizadas de conexão entre atores, constituídos no tempo e através da interação social (2009, p. 28). Eles podem ser associativos (mais fracos, definidos por uma interação reativa; aceitar uma solicitação de amizade no Facebook, por exemplo) ou dialógicos (mais fortes, definidos por uma interação mútua, como trocar scraps com alguém no Orkut).

saramag.jpg

Como Umberto Eco, o escritor português José Saramago (1922 – 2010) também olhava desconfiado para as interações sociais mediadas pelo computador. “Os tais 140 caracteres reflectem algo que já conhecíamos: a tendência para o monossílabo como forma de comunicação. De degrau em degrau, vamos descemos até o grunhido”, disse, sobre o sucesso do Twitter, em entrevista para O Globo, em 2009. (Imagem: Arquivo O Globo)

É importante pensar nos laços sociais porque a maneira como eles são compreendidos pela internet, cada vez mais conduzida por algorítmos que vão se tornando mais complexos e sofisticados diariamente (a cada ano, o Google realiza aproximadamente 500 aprimoramentos no código do seu sistema, segundo matéria da Folha de S.Paulo de 2014), pois as redes sociais irão se dedicar a manutenção destes, buscando preservar suas ligações reais. Também nossas interações mais solitárias serão estudadas por códigos em toda a rede; nossas pesquisas no Google, nossas preferências musicais no Spotify, nossos likes e demais reações no Facebook.

14090144

Apenas 20% das postagens dos amigos do usuário médio do Facebook chegam a ser exibidas em seu feed. (Infográfico: Filipe Rocha/Folhapress/2014)

 

Quais são os problemas nas interações mediadas pelo computador?

Cercado por nossas próprias preferências, acabamos por interagir numa comunidade virtual feita por e para nós próprios. Isso é prejudicial por vários motivos; ao não se deparar com opiniões divergentes, diferentes narrativas e pontos de vista deixam de dialogar, prejudicando o debate público em várias instâncias e relativizando o livre acesso à informação. Em entrevista à Revista Época, em agosto de 2012, o ativista digital americano Eli Pariser afirma que

Quando você lê uma revista ou liga a televisão, você tem uma ideia de qual é a linha editorial daquela publicação ou canal. O mesmo vale, mais ainda, quando você conversa pessoalmente com um amigo cujas opiniões políticas você conhece. Você sabe quais pontos de vista estão lá e quais não estão, e sabe onde encontrar os que ficaram de fora. No Google e no Facebook, nada é explícito. Você não sabe em que perfil de usuário os sites te enquadram nem em que informações se basearam para chegar àquela conclusão. Não é possível saber o que você está perdendo, que partes da internet estão fora de seu alcance. As informações desaparecem sem aviso. (PARISER, 2012)

Uma rede pouco neutra pode prejudicar o jornalismo na medida em que informações de inegável relevância são ocultadas para não ferir as preferências pessoais, políticas ou ideológicas do usuário da rede. A forma como as redes sociais online se configuram atualmente lembram, de certa forma, os perigos de uma história única, termo popularizado pela romancista e ativista nigeriana Chimamanda Adiche: na ausência do contraditório, toma-se a parte pelo todo e não se percebe as reais nuances e minúncias do mundo. O jornalismo tem muito a perder neste contexto, pois ele é, em essência, o contato com o contraditório, o embate de diferentes versões de uma mesma história, um espaço de disputa de perspectivas, opiniões, pontos de vista, narrativas.

 

 

Anexos:

Tweet de Vinícius Perez (@chinisalada)

 


Palestra de Eli Pariser no TED 2011 sobre os Filtros Bolha.

 


Palestra de Chimamanda Adichie no TED 2009 sobre O perigo da história única. A fala de Adichie trás uma ideia de enfrentamento dos valores dominantes de uma cultura transnacional através da literatura.

 

Referências:

SCHITTINE, Denise. Blog: comunicação e escrita íntima na internet. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004.

Recuero, R., Redes Sociais na Internet., Porto Alegre, Sulina, 2009. (Cap. 1)

http://www1.folha.uol.com.br/tec/2014/03/1432549-quem-decide-o-que-voce-ve-na-internet.shtml
<Acesso em 25 de agosto de 2016>

http://revistaepoca.globo.com/ideias/noticia/2012/08/internet-esconde-quem-discorda-de-voce.html
<Acesso em 25 de agosto de 2016 >

http://canaltech.com.br/materia/nostalgia/o-bom-e-velho-mirc-nao-morreu-112/ <Acesso em 26 de agosto de 2016>

 

O jornalismo transmídia

As novas mídias, os dispositivos móveis e eletrônicos proporcionaram uma nova forma de construir e veicular a informação. Youtube, Twitter, Facebook, blogs e outras plataformas de comunicação possibilitaram um alcance mais amplo com o público e permitiram uma maior participação com este.

O jornalismo transmídia vai se apropriar dessas plataformas para produzir uma reportagem de amplo alcance, na qual os usuários podem ter contato: utilizando o smartphone, assistindo à televisão, ouvindo a rádio ou com qualquer outro meio de veiculação que a notícia esteja adaptada.

Espera aí, o que é transmídia?

De acordo com Jenkins (2009), transmídia é uma convergência de textos para criar uma narrativa tão ampla que não pode ser contida em uma única mídia. Dessa forma, o texto se desenrola através de múltiplas plataformas de mídias que alteram a história e as adaptam de acordo com o meio, sendo que cada modificação contribui para um todo em comum.

Para melhorar a compreensão sobre transmídia, assista ao vídeo abaixo:

Jornalismo coletivo

A transmídia no jornalismo utiliza a participação dos usuários para a construção das reportagens. A rapidez com que a informação é compartilhada através dos dispositivos móveis permite aos profissionais da comunicação ficarem cientes de algum ocorrido com uma maior facilidade e por vezes chegam até a usar fotos ou vídeos feitos pelas pessoas que estavam presentes no momento exato da situação.

Ao se apropriar dessas informações o jornalista vai adaptá-las para cada mídia, e assim a notícia é apresentada de um jeito no jornal impresso, de outro na TV e alcança o leitor onde quer que ele esteja, desde que este possua um dispositivo móvel.

Segundo Scolari (2014, apud MASSAROLO 2015), o jornalismo sempre teve um caráter transmídia, mesmo na época em que não existia redes sociais os usuários ligavam para às rádios, mandavam cartas para os editores de jornais e as notícias expandiam do rádio para a televisão e para os impressos.

Graças ao surgimento das novas mídias e o papel fundamental dos dispositivos móveis esse processo ganhou uma maior dimensão.

Jornalismo  e usuários

A rede Globo criou novas plataformas para se enquadrar cada vez mais ao modelo transmidiático. O portal Globo.com, por exemplo, possui ramos como o G1, O Globo Esporte, GShow, blogs e estes, por sua vez, estendem o conteúdo jornalístico e de entretenimento veiculado na TV e contam com a participação dos usuários.

globo

Plataformas da Rede Globo (Foto: Reprodução)

O jornalismo está se apropriando cada vez mais da interação com os seus usuários. Pois, tudo está interligado. De acordo com Jenkins (2009), o público está acabando com a ideia de que só autor pode escrever a história e por sua vez, está inovando e reescrevendo as histórias.

Veja o que Jenkins aborda nesse vídeo:

Narrativa transmídia para além do jornalismo

Um exemplo de narrativa transmídia pode ser observado na história do filme Capitão America: Guerra Civil (2016), da Marvel Studios, em que existe uma relação com todo o universo da Marvel.

marvel

Imagem: Divulgação

Essa história é veiculada através de outros filmes, séries, HQs e vídeo games. Em cada uma dessas plataformas vai existir uma nova história que está relacionada com todas as outras, ou seja, a pessoa que assistir somente a um filme vai entender um pedaço da história e para que ela entenda o todo é preciso navegar por todos os meios.

Conclusão

O jornalismo transmídia faz parte de uma nova era: a Era da Convergência de Informações. Ele se utiliza das novas plataformas e das novas mídias para ampliar a capacidade de participação e alcance ao público.

No jornalismo transmídia não existe autor, mas sim, autores e autoras pois, a participação do público é o que inova cada história.

Referências

JENKINS, H., Cultura da Convergência, RJ. Aleph, 2009.

MASSAROLO, João. Jornalismo transmídia: a notícia na cultura participativa. Revista Brasileira de Ensino de Jornalismo, Brasília, v. 5, n. 17, p. 135-158, jul./dez. 2015. Diponível em: <http://www.fnpj.org.br/rebej/ojs/index.php/rebej/article/viewFile/433/255&gt; . Acesso em: 24 ago. 2016.

Os dispositivos móveis e a construção das novas mídias jornalístias

A difusão cada vez maior dos dispositivos móveis de comunicação, sobretudo os smatphones, tem servido de mola propulsora para o desenvolvimento das novas mídias jornalísticas.

Jornalismo é definido por Bechara (2011) como sendo a atividade profissional que consiste em coletar e investigar informações, editar e publicar notícias e reportagens; sendo a imprensa a totalidade dos jornalistas e meios de comunicação.

Pelos celulares, são produzidos e distribuídos cada vez mais e diversificados conteúdos em um espaço de tempo cada vez menor. Lemos (2009) define esses aparelhos móveis como “teletudo”, devido a capacidade de convergência de diversas funções que eles possuem, conectando vozes, dados, imagens fixas e animadas, vídeos, música e mensagens de texto.

Diante disso, a produção da notícia foi democratizada e uma série de canais, definidos genericamente como alternativos, surgiu e hoje divide o protagonismo jornalístico com a imprensa corporativa/tradicional.

Essa abertura da produção da notícia está diretamente relacionada a uma das leis do processo atual da cibercultura, a Liberação do Polo de Emissão. Por esse princípio, o antigo receptor passa a agir também como emissor de informação, de forma livre e multimodal (Lemos, 2009).

Lemos (2009) cita como exemplo da liberação do polo de emissão as imagens de catástrofes naturais, ataques terroristas e guerrilhas urbanas ocorridos recentemente e que foram registradas através de câmeras de smartphones de pessoas que presenciaram os fatos. Imagens essas que circularam o mundo e foram replicadas maciçamente, inclusive pela mídia tradicional.

A afirmação do autor supracitado vai ao encontro da previsão de Jenkins (2009) que, citando Pierre Levy, disse que a distinção entre autores e leitores, produtores e espectadores, criadores e intérpretes se dissolverá a ponto de formar um circuito de expressão, com cada participante trabalhando para sustentar a atividade dos outros.

Uma gramática em construção

Evidente que a gramática adotada pela nova mídia não segue a linha dos veículos tradicionais. Até porque, muitos desses novos comunicadores não são necessariamente oriundos das escolas de comunicação e, por isso, não carregam as imposições acadêmicas ou a padronização dos veículos corporativos.

Para Vilas Boas (1996), o texto jornalístico carrega em si especificidades, de modo que o uso de técnicas que determinarão um estilo próprio se faz necessário para dar ao leitor o entendimento de que à sua frente está um texto jornalístico.

A linguagem das mídias emergentes, de certo modo, subverte o classicismo das tradicionais, colocando em xeque a relação do receptor com a ideia convencional de texto jornalístico.

Os enquadramentos pasteurizados, no caso das fotografias e vídeos, deram lugar a imagens tremidas, borradas e repletas de ruídos, dos aparelhos celulares. Quando se trata de textos escritos, Squarsi (2011) afirma que na rede a notícia é um ser vivo com pernas e asas que se modifica ao longo do dia. “O título e a chamada mudam tantas vezes quantas forem necessárias”.

A pesquisadora ressalta que os textos nesse formato não podem superar o tamanho das telas e devem ter a leitura facilitada por hiperlinks, vídeos, galerias de fotos e outros recursos multimídia, afim de acompanhar o ritmo do leitor moderno.

As linguagens dialogam

Apesar das diferenças entre as linguagens, a nova mídia absorve ideias da irmã tradicional. Ainda de acordo com Squarisi (2011), o conceito “antigo” da pirâmide invertida, o lide, nunca esteve tão na moda quanto com o jornalismo online, sobretudo o feito por e para smartphones.

A necessidade de informar o fato o mais rápido e num menor número de linhas possível, obriga os jornalistas digitais a serem precisos. Assim, eles necessitam responder o que; quem; quando; como; onde; e porque da notícia já na abertura do texto.

Em uma analogia da Mídia Nova com o Cinema Novo – movimento brasileiro dos anos 1960 cujo lema era “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça” – que se propôs a romper os paradigmas vigentes na época, ou seja, inaugurar um cinema rompesse com o tradicional; ele também se baseou em movimentos já existentes: o Neorrealismo Italiano e a Nouvelle Vague Francesa (Kemp, 2011).

Ainda tomando o cinema como exemplo, Jenkins (2009) afirma que na era do pós-modernismo nenhum filme pode ser experimentado com olhos virgens; todos são interpretados à luz de outros filmes. Ou seja, possuem referências já conhecidas.

Esse diálogos entre o tradicional e o novo retrata perfeitamente o hibridismo entre as culturas da comunicação, algo tão necessário para a sua atualização e, acima de tudo, sobrevivência (Lemos, 2009).

Mídia Ninja: um caso de sucesso

A rede de comunicadores e mídia Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação (NINJA) é, talvez, o exemplo brasileiro mais bem sucedido de nova mídia que tem como um dos seus pilares a produção de conteúdos por dispositivos móveis.

“Apostamos na lógica colaborativa de criação e compartilhamento de conteúdos, característica da sociedade em rede, para realizar reportagens, documentários e investigações no Brasil e no mundo”, descreve o coletivo em sua página no Facebook.

“Vivemos uma cultura peer­to­peer (P2P), que permite a troca de informações diretas entre as pessoas, sem a presença dos velhos intermediários. (…) Neste novo tempo, emergem os ‘cidadãos multimídia’, com capacidade de construir sua opinião e compartilha-la no ambiente virtual”, completa o texto.

Martinez e Persichetti (2015) compararam as coberturas fotojornalística do Mídia Ninja e da Folha de S.Paulo durante a abertura da Copa do Mundo de 2014. Segundo os autores, o Mídia Ninja apresentou uma cobertura diversificada do evento, com fotografias irregulares, vívidas, que buscavam capturar o evento no calor do momento.

Enquanto a Folha se preocupou apenas em destacar os elementos da violência do evento, especialmente os acontecimentos que tiveram impacto direto na imprensa internacional que veio ao Brasil cobrir a Copa.

As três imagens a seguir fazem parte da cobertura do Mídia Ninja da abertura da Copa
mn3

Foto: Reprodução Mídia Ninja

mn2

Foto: Reprodução/Mídia Ninja

mn

Foto: Reprodução/Mídia Ninja

As fotos do Mídia Ninja foram legendadas com textos curtos, informais, quase ingênuos. Essa opção textual, segundo os autores do estudo, se deu por conta da pressa para liberar o material para os espectadores ou pela tentativa de passar para esse espectador a sensação de uma cobertura em tempo real.

Prisão de Eduardo Suplicy

Outro exemplo de cobertura do Mídia Ninja de grande repercussão foi o episódio envolvendo a prisão do ex-senador Eduardo Suplicy, em julho deste ano. O político de 75 anos foi detido após protestar contra reintegração de posse na cidade de São Paulo.

Inúmeros vídeos mostrando Suplicy sendo carregado pelos policiais circularam na internet naquele 25 de julho. Dentre eles, o do Mídia Ninja, que foi emoldurado no Twitter do coletivo pela legenda: “ABSURDO! Eduardo Suplicy acaba de ser detido pela PM ao proteger famílias de uma reintegração de posse na Zona Sul”.

Assista ao vídeo:

Não há inocentes no universo midiático

Apesar dos novos veículos representarem um outro ponto de vista em relação aos fatos, eles não são necessariamente mais imparciais do que os meios tradicionais. Em relação a isso, Martinez e Persichetti (2015) afirmam que não há olhar inocente e que por trás de qualquer imagem existe um olho ideológico que pretende apresentar um ponto de vista acerca de um determinado assunto.

Conclusões

Os smartphones de certo modo favoreceram as pessoas a colaborarem com a produção jornalística. Através desses computadores de bolso, cidadãos comuns podem hoje ocupar o espaço que até pouco tempo atrás era exclusivo de uma minoria controlada por grandes conglomerados midiáticos.

Essas grandes empresas de mídia, por sua vez, ainda exercem forte influência na difusão de conteúdos jornalísticos. Mesmo porque elas souberam se apropriar das ferramentas que compõem as novas mídias (redes sociais, versões mobile, etc) para sustentar a forma e o conteúdo que vêm repetindo através dos veículos de comunicação de massa.

É inegável, porém, que a popularização do smartphone, somada à melhoria dos serviços de banda larga, difusão de conhecimento a respeito do uso da tecnologia para a produção de conteúdos, dentre outros fatores, vêm contribuindo para a democratização da emissão de opiniões através de conteúdos jornalísticos e, consequentemente, para o enriquecimento do debate de ideias.

Referências:

LEMOS, A. Cibercultura como território recombinante.A cibercultura e seu espelho: campo de conhecimento emergente e nova vivência humana na era da imersão interativa. São Paulo: ABCiber, p. 38-46, 2009. Disponível em: http://www.com.ufv.br/cibercultura/wp-content/uploads/2014/02/01.-Andr%C3%A9-Lemos-Cibercultura-como-Territ%C3%B3rio-Recombinante.pdf

JENKINS, H., Cultura da Convergência, RJ. Aleph, 2009.

MARTINEZ, M. PERSICHETTI, S. Mídia Ninja: a narrativa fotojornalística brasileira na era digital. Líbero – São Paulo – v.18, n.35, p.55-64, jan./jun. de 2015.

VILAS BOAS, S. O estilo magazine: o texto em revista/Sergio Vilas Boas. – São Paulo: Summus, 1996. – (Coleção Novas Buscas em Comunicação; v.52), p.7.

BECHARA, E. Dicionário da língua portuguesa Evanildo Bechara/Evanildo Bechara – 1.ed. – Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2011.

KEMP, P. Tudo Sobre Cinema [tradução de Fabiano Morais et al];  Rio de Janeiro: Sextante, 2011. p.264-265.

SQUARISI, D. Manual de Redação e Estilo para Mídias Convergentes. –São Paulo: Geração Editorial, 2011. p.54-56.

Anexo:

Confira a entrevista de Bruno Torturra e Pablo Capilé, fundadores do Mídia Ninja, ao programa da TVE Roda Viva