Os dispositivos móveis e a construção das novas mídias jornalístias

A difusão cada vez maior dos dispositivos móveis de comunicação, sobretudo os smatphones, tem servido de mola propulsora para o desenvolvimento das novas mídias jornalísticas.

Jornalismo é definido por Bechara (2011) como sendo a atividade profissional que consiste em coletar e investigar informações, editar e publicar notícias e reportagens; sendo a imprensa a totalidade dos jornalistas e meios de comunicação.

Pelos celulares, são produzidos e distribuídos cada vez mais e diversificados conteúdos em um espaço de tempo cada vez menor. Lemos (2009) define esses aparelhos móveis como “teletudo”, devido a capacidade de convergência de diversas funções que eles possuem, conectando vozes, dados, imagens fixas e animadas, vídeos, música e mensagens de texto.

Diante disso, a produção da notícia foi democratizada e uma série de canais, definidos genericamente como alternativos, surgiu e hoje divide o protagonismo jornalístico com a imprensa corporativa/tradicional.

Essa abertura da produção da notícia está diretamente relacionada a uma das leis do processo atual da cibercultura, a Liberação do Polo de Emissão. Por esse princípio, o antigo receptor passa a agir também como emissor de informação, de forma livre e multimodal (Lemos, 2009).

Lemos (2009) cita como exemplo da liberação do polo de emissão as imagens de catástrofes naturais, ataques terroristas e guerrilhas urbanas ocorridos recentemente e que foram registradas através de câmeras de smartphones de pessoas que presenciaram os fatos. Imagens essas que circularam o mundo e foram replicadas maciçamente, inclusive pela mídia tradicional.

A afirmação do autor supracitado vai ao encontro da previsão de Jenkins (2009) que, citando Pierre Levy, disse que a distinção entre autores e leitores, produtores e espectadores, criadores e intérpretes se dissolverá a ponto de formar um circuito de expressão, com cada participante trabalhando para sustentar a atividade dos outros.

Uma gramática em construção

Evidente que a gramática adotada pela nova mídia não segue a linha dos veículos tradicionais. Até porque, muitos desses novos comunicadores não são necessariamente oriundos das escolas de comunicação e, por isso, não carregam as imposições acadêmicas ou a padronização dos veículos corporativos.

Para Vilas Boas (1996), o texto jornalístico carrega em si especificidades, de modo que o uso de técnicas que determinarão um estilo próprio se faz necessário para dar ao leitor o entendimento de que à sua frente está um texto jornalístico.

A linguagem das mídias emergentes, de certo modo, subverte o classicismo das tradicionais, colocando em xeque a relação do receptor com a ideia convencional de texto jornalístico.

Os enquadramentos pasteurizados, no caso das fotografias e vídeos, deram lugar a imagens tremidas, borradas e repletas de ruídos, dos aparelhos celulares. Quando se trata de textos escritos, Squarsi (2011) afirma que na rede a notícia é um ser vivo com pernas e asas que se modifica ao longo do dia. “O título e a chamada mudam tantas vezes quantas forem necessárias”.

A pesquisadora ressalta que os textos nesse formato não podem superar o tamanho das telas e devem ter a leitura facilitada por hiperlinks, vídeos, galerias de fotos e outros recursos multimídia, afim de acompanhar o ritmo do leitor moderno.

As linguagens dialogam

Apesar das diferenças entre as linguagens, a nova mídia absorve ideias da irmã tradicional. Ainda de acordo com Squarisi (2011), o conceito “antigo” da pirâmide invertida, o lide, nunca esteve tão na moda quanto com o jornalismo online, sobretudo o feito por e para smartphones.

A necessidade de informar o fato o mais rápido e num menor número de linhas possível, obriga os jornalistas digitais a serem precisos. Assim, eles necessitam responder o que; quem; quando; como; onde; e porque da notícia já na abertura do texto.

Em uma analogia da Mídia Nova com o Cinema Novo – movimento brasileiro dos anos 1960 cujo lema era “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça” – que se propôs a romper os paradigmas vigentes na época, ou seja, inaugurar um cinema rompesse com o tradicional; ele também se baseou em movimentos já existentes: o Neorrealismo Italiano e a Nouvelle Vague Francesa (Kemp, 2011).

Ainda tomando o cinema como exemplo, Jenkins (2009) afirma que na era do pós-modernismo nenhum filme pode ser experimentado com olhos virgens; todos são interpretados à luz de outros filmes. Ou seja, possuem referências já conhecidas.

Esse diálogos entre o tradicional e o novo retrata perfeitamente o hibridismo entre as culturas da comunicação, algo tão necessário para a sua atualização e, acima de tudo, sobrevivência (Lemos, 2009).

Mídia Ninja: um caso de sucesso

A rede de comunicadores e mídia Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação (NINJA) é, talvez, o exemplo brasileiro mais bem sucedido de nova mídia que tem como um dos seus pilares a produção de conteúdos por dispositivos móveis.

“Apostamos na lógica colaborativa de criação e compartilhamento de conteúdos, característica da sociedade em rede, para realizar reportagens, documentários e investigações no Brasil e no mundo”, descreve o coletivo em sua página no Facebook.

“Vivemos uma cultura peer­to­peer (P2P), que permite a troca de informações diretas entre as pessoas, sem a presença dos velhos intermediários. (…) Neste novo tempo, emergem os ‘cidadãos multimídia’, com capacidade de construir sua opinião e compartilha-la no ambiente virtual”, completa o texto.

Martinez e Persichetti (2015) compararam as coberturas fotojornalística do Mídia Ninja e da Folha de S.Paulo durante a abertura da Copa do Mundo de 2014. Segundo os autores, o Mídia Ninja apresentou uma cobertura diversificada do evento, com fotografias irregulares, vívidas, que buscavam capturar o evento no calor do momento.

Enquanto a Folha se preocupou apenas em destacar os elementos da violência do evento, especialmente os acontecimentos que tiveram impacto direto na imprensa internacional que veio ao Brasil cobrir a Copa.

As três imagens a seguir fazem parte da cobertura do Mídia Ninja da abertura da Copa
mn3

Foto: Reprodução Mídia Ninja

mn2

Foto: Reprodução/Mídia Ninja

mn

Foto: Reprodução/Mídia Ninja

As fotos do Mídia Ninja foram legendadas com textos curtos, informais, quase ingênuos. Essa opção textual, segundo os autores do estudo, se deu por conta da pressa para liberar o material para os espectadores ou pela tentativa de passar para esse espectador a sensação de uma cobertura em tempo real.

Prisão de Eduardo Suplicy

Outro exemplo de cobertura do Mídia Ninja de grande repercussão foi o episódio envolvendo a prisão do ex-senador Eduardo Suplicy, em julho deste ano. O político de 75 anos foi detido após protestar contra reintegração de posse na cidade de São Paulo.

Inúmeros vídeos mostrando Suplicy sendo carregado pelos policiais circularam na internet naquele 25 de julho. Dentre eles, o do Mídia Ninja, que foi emoldurado no Twitter do coletivo pela legenda: “ABSURDO! Eduardo Suplicy acaba de ser detido pela PM ao proteger famílias de uma reintegração de posse na Zona Sul”.

Assista ao vídeo:

Não há inocentes no universo midiático

Apesar dos novos veículos representarem um outro ponto de vista em relação aos fatos, eles não são necessariamente mais imparciais do que os meios tradicionais. Em relação a isso, Martinez e Persichetti (2015) afirmam que não há olhar inocente e que por trás de qualquer imagem existe um olho ideológico que pretende apresentar um ponto de vista acerca de um determinado assunto.

Conclusões

Os smartphones de certo modo favoreceram as pessoas a colaborarem com a produção jornalística. Através desses computadores de bolso, cidadãos comuns podem hoje ocupar o espaço que até pouco tempo atrás era exclusivo de uma minoria controlada por grandes conglomerados midiáticos.

Essas grandes empresas de mídia, por sua vez, ainda exercem forte influência na difusão de conteúdos jornalísticos. Mesmo porque elas souberam se apropriar das ferramentas que compõem as novas mídias (redes sociais, versões mobile, etc) para sustentar a forma e o conteúdo que vêm repetindo através dos veículos de comunicação de massa.

É inegável, porém, que a popularização do smartphone, somada à melhoria dos serviços de banda larga, difusão de conhecimento a respeito do uso da tecnologia para a produção de conteúdos, dentre outros fatores, vêm contribuindo para a democratização da emissão de opiniões através de conteúdos jornalísticos e, consequentemente, para o enriquecimento do debate de ideias.

Referências:

LEMOS, A. Cibercultura como território recombinante.A cibercultura e seu espelho: campo de conhecimento emergente e nova vivência humana na era da imersão interativa. São Paulo: ABCiber, p. 38-46, 2009. Disponível em: http://www.com.ufv.br/cibercultura/wp-content/uploads/2014/02/01.-Andr%C3%A9-Lemos-Cibercultura-como-Territ%C3%B3rio-Recombinante.pdf

JENKINS, H., Cultura da Convergência, RJ. Aleph, 2009.

MARTINEZ, M. PERSICHETTI, S. Mídia Ninja: a narrativa fotojornalística brasileira na era digital. Líbero – São Paulo – v.18, n.35, p.55-64, jan./jun. de 2015.

VILAS BOAS, S. O estilo magazine: o texto em revista/Sergio Vilas Boas. – São Paulo: Summus, 1996. – (Coleção Novas Buscas em Comunicação; v.52), p.7.

BECHARA, E. Dicionário da língua portuguesa Evanildo Bechara/Evanildo Bechara – 1.ed. – Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2011.

KEMP, P. Tudo Sobre Cinema [tradução de Fabiano Morais et al];  Rio de Janeiro: Sextante, 2011. p.264-265.

SQUARISI, D. Manual de Redação e Estilo para Mídias Convergentes. –São Paulo: Geração Editorial, 2011. p.54-56.

Anexo:

Confira a entrevista de Bruno Torturra e Pablo Capilé, fundadores do Mídia Ninja, ao programa da TVE Roda Viva