O jornalismo móvel é virtual?

Desde o ano passado, a crise de refugiados na Europa tem atraído a atenção de diversos veículos de comunicação. Vários jornalistas foram enviados para os locais de conflitos para cobrir o fato. Muitos deles, utilizaram as redes sociais, imagens, textos e vídeos produzidos através de dispositivos móveis para isso.

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Griff Witte cobriu a viagem dos refugiados para a Europa Ocidental para o Washington Post e compartilhou no Twitter imagens e vídeos da fronteira Sérvia-Húngara

Pessoas de diversas partes do mundo podem ter acesso a essas informações a partir de um aparelho celular. As notícias são lidas, ouvidas, assistidas e compartilhadas por consumidores que podem estar distantes fisicamente do local de sua produção. Jornalistas também podem realizar entrevistas através de aplicativos como Skype e WhatsApp, sem ter contato físico com as fontes. Podem acessar arquivos, banco de dados, documentos antigos e locais distantes através do computador.

Estaria o jornalismo se tornando virtual? O jornalista móvel é virtual?

Relação com o espaço e com o tempo

Ao longo da história, diversas criações afetaram nossa relação com o espaço e com o tempo, principalmente reduzindo distâncias e modificando os conceitos de lentidão e rapidez. É, por exemplo, o caso do desenvolvimento do telégrafo no século XVIII e do avião no início do século XX, passando pelo telefone celular já às vésperas do século XXI.

A mobilidade sempre esteve presente nas redes de transporte, comunicação e de fluxos financeiros, segundo André Lemos. “As cidades e os processos midiáticos que lhe são correlatos e estruturantes, como o jornalismo e depois as mídias audiovisuais, são desde sempre fluxo, troca, deslocamento, desenraizamento e desterritorializações (das relações sociais, das informações e dos territórios)” (2007). Falaremos sobre desterritorialização mais à frente.

Dessa forma, ler notícias sobre locais onde não se está presente fisicamente é apenas mais uma modificação da relação com o espaço. Ler notícias muito recentes ou já antigas, uma modificação da relação com o tempo. Esse processo não surge exclusivamente por conta da internet ou das tecnologias móveis, apesar de ser uma forte característica desta nova forma de compreender e produzir notícias. “O jornalismo móvel se consolida como uma prática vinculada à expansão da mobilidade contemporânea” (Silva, 2015).

O virtual e o atual

Fernando Firmino da Silva, em seu livro “Jornalismo Móvel”, define o jornalismo móvel como a “utilização de tecnologias móveis digitais e de conexões de redes sem fio pelo repórter na prática jornalística contemporânea visando ao desenvolvimento das etapas de apuração, produção e distribuição de conteúdos do campo ou de transmissão ao vivo” (2015, p. 11).

Através dessa definição, entendemos que o jornalismo móvel surge como resposta à necessidade de fortalecer, ampliar, tornar mais dinâmicas as etapas de produção e consumo de notícias. Havia um problema, uma necessidade e chegamos a soluções.

Virtualizar significa, justamente, questionar, segundo Pierre Lévy, filósofo tunísio. Significa fazer algo atual se tornar viável para solucionar um problema, um estado de problematização. Nós, jornalistas, estamos no campo da virtualização quando nos questionamos de que modo podemos cobrir determinado fato: usaremos texto? Foto? Vídeo? Quando executamos a solução optada, partimos para o campo da atualização.

Também está atualizando uma notícia o leitor ao escolher consumi-la na tv ou no jornal impresso e produzir sentido ao fazê-lo. Consumir notícias através de aparelhos móveis é um novo modo de atualização.

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Relações entre o Potencial (possível), o Real, o Virtual e o Atual, segundo Pierre Lévy.
Fonte: http://www.ccuec.unicamp.br/revista/infotec/artigos/renato.html

Cabe aqui distinguir virtual de possível: possível é aquilo que já é real, faltando apenas sua existência; virtual é um “complexo problemático, o nó de tendências ou de forças que acompanha uma situação, um acontecimento, um objeto ou uma entidade qualquer, e que chama um processo de resolução, a atualização” (Lévy in Souza, 2007).

O real – provocação de mudanças na realidade e as novas formas de fazer e consumir notícias

O ciclo entre virtual e atual acontece o tempo todo e modifica a produção de espaço e de tempo, ou seja, alteram a realidade. Através da descoberta de uma questão geral (virtualização), podemos criar novas formas de fazer (solucionar, atualizar) algo e assim acontecem as mudanças.

Ao criar novas formas de fazer, muda-se também a própria forma de fazer. A atualização do problema provoca uma transformação de ideias que alimenta de volta o virtual. No caso do jornalismo móvel, os atos de produção, distribuição e consumo de notícias através de dispositivos móveis “complexifica a cultura jornalística com a incorporação de novas rotinas” (Silva, 2015).

“A redação móvel realiza-se através do aporte da infraestrutura de conexão sem fio (3G, 4G, Wi-Fi, WiMAX ou Bluetooth) e das tecnologias móveis digitais, portáteis e ubíquas (celular, smartphone, tablets, netbooks, gravadores, câmeras digitais e similares)” (Silva, 2015). Sendo assim, surgem novas funções e novas rotinas na prática jornalística e no consumo de notícias.

Redes e território informacional – a qualquer hora e em qualquer lugar

As tecnologias móveis surgem como “mediadoras da mobilidade informacional e física e o jornalismo na apropriação do território informacional para condução do fluxo de informações” (Silva, 2015). O território informacional cobre as cidades com as redes de conexão sem fio que formam um espaço de tráfego de dados.

Essa nova infraestrutura de redes e dispositivos afeta as formas de lidar com os dados, como textos, fotos e vídeos (Silva, 2015). Isso permite que surjam, como já foi dito, novas formas de produzir, distribuir e consumir notícias através de imagens, gráficos, vídeos, áudio etc.

Desterritorialização

Segundo Pierre Lévy, quando uma pessoa, uma coletividade, um ato, uma informação se virtualizam, eles se tornam “não-presentes” (1996, p. 9), ou seja, se desterritorializam, tanto do espaço físico, geográfico, quanto do tempo. É também segundo Lévy que a invenção de novas velocidades e temporalidades está imbricada no processo de virtualização. Desterritorializar, tornar empresas, organizações e modos inteiros de produção alheios às questões relativas à geografia implica na abertura de novos meios de interação e ritmo das cronologias inéditas (p. 9).

Na perspectiva do jornalismo móvel, podemos pensar nas novas formas de cobertura dos eventos; com uma “redação digital” torna-se possível dinamizar a narração dos fatos, criar novas temporalidades na nossa relação com a comunicação, ajudando a alterar a realidade social (p. 9).

Conclusão

A partir do que foi falado neste post, podemos retornar às perguntas feitas no início: estaria o jornalismo se tornando virtual? Não. O jornalismo hoje é tão real quanto sempre foi. Mudam-se apenas a forma de fazer, as práticas jornalísticas. Podemos falar em jornalismo eletrônico ou através de meios eletrônicos móveis.

O jornalista móvel é virtual? Também não. Ele é real e utiliza diversas ferramentas eletrônicas para tornar seu trabalho possível.

Devemos tomar cuidado ao usar a palavra virtual para significar eletrônico. Virtualizar significa questionar. “De que forma posso noticiar esse acontecimento?”. Atualizar é colocar a solução em prática como, por exemplo, através de dispositivos móveis.

Virtual e atual acontecem ciclicamente na sociedade, questionando e criando novas práticas, provocando mudanças na nossa relação com o espaço e com o tempo.

Referências

LÉVY, PIERRE. 1. O que é a virtualização?. In: ____. O que é o virtual?. São Paulo: Editora 34, 1996. p. 5-12.

FIRMINO, Fernando. Jornalismo móvel. Salvador: EDUFBA, 2015. Disponível em https://repositorio.ufba.br/ri/bitstream/ri/18003/1/jornalismo-movel-miolo-repo.pdf

SOUZA, RENATO ROCHA. O que é, realmente, o virtual?, in Infotec Unicamp, São Paulo, 2007. Disponível em http://www.ccuec.unicamp.br/revista/infotec/artigos/renato.html

LEMOS, ANDRÉ. Cidade e Mobilidade. Telefones Celulares, funções pós-massivas e territórios informacionais., in Matrizes, Revista do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação., USP, ano 1, n.1, São Paulo, 2007, ISSN 1982-2073, pp.121-137. Disponível em http://www.matrizes.usp.br/index.php/matrizes/article/view/29/43