A realidade construída pelos jornalistas

A forma como as pessoas se comunicam vem sendo alterada ao longo do tempo de acordo com as novas tecnologias que surgem. Antes, as pessoas esperavam dias a chegada de uma carta para se atualizarem sobre a vida de algum parente que morava em outra cidade ou até mesmo para saber algo sobre a sua própria cidade era necessário esperar a informação passar pelo boca-a-boca.

Esse processo passou por uma drástica mudança com a chegada do rádio, da televisão e do jornal impresso. Essas mídias são consideradas como mídias massivas. Utiliza-se aqui o conceito de mídia massiva, de acordo com André Lemos

“Por função massiva compreendemos um fluxo centralizado de informação, com o controle editorial do pólo da emissão, por grandes empresas em processo de competição entre si, já que são financiadas pela publicidade. ” (Lemos, 2007)

Então, nessa fase a informação ganhou uma mobilidade maior, porém, era unidirecional e controlada por grandes corporações. De modo que não existia uma interação com telespectador.

cherge1

Com a chegada das novas tecnologias como internet, dispositivos móveis etc, entramos para uma fase de mídias pós-massivas que, ainda segundo Lemos

“As mídias de função pós-massiva, por sua vez, funcionam a partir de redes
telemáticas em que qualquer um pode produzir informação, ‘liberando’ o pólo
da emissão, sem necessária mente haver empresas e conglomerados econômicos por trás.” (Lemos, 2007)

Agora, a forma de produzir informação se altera completamente. Além da rapidez de disseminação, ainda temos o fato de que qualquer pessoa pode produzi-la. Hoje, temos um cenário em que as mídias massivas e pós-massivas coexistem e é exatamente aí que o jornalista vai obter um novo papel, o de construtor da realidade.

hibrido

Cenário híbrido

Por que essa ideia de construir uma realidade?

Antes da cultura massiva, já era difícil relatar um ocorrido sem que este sofresse alterações ao longo da comunicação. Então, em pleno século XXI isso se tornou impossível.

Um fato pode ser descrito de várias maneiras e cada relato causará um impacto diferente nas pessoas. De forma que a realidade será lida de modo diferente por cada pessoa. O veículo que serve de fonte de informação, bem como o canal, também ajudam a moldar a realidade para cada espectador.

Segundo Penna (2010, apud CASTRO 2013) o Jornalismo “está longe de ser o espelho do real. É, antes, a construção de uma suposta realidade”. O jornalista vai construir uma informação de acordo com aquilo que lhe é conveniente. E para um leitor que leia apenas essa versão, terá a sua realidade construída a partir de um único ponto de vista.

Existe um lado perigoso

O fato de qualquer pessoa poder veicular uma notícia, pode ser algo muito perigoso. Existe uma necessidade de mover a informação a todo tempo, seja sobre sua vida pessoal, sobre algo injusto que aconteceu dentro do ônibus ou até mesmo um acidente que você presenciou.

A rapidez com que isso ocorre se deve graças aos territórios informacionais que, de acordo com Lemos (2007) se manifesta, por exemplo, quando uma pessoa se conecta a uma rede wi-fi de um parque e passa a navegar por outras zonas que estão além daquela fisicamente delimitada.

Hoje, quase todos os lugares possuem territórios informacionais. Isso permite ao jornalista ter um poder de alcance muito grande e muitas vezes este está tão preocupado em passar a informação que não se atenta em analisá-la com mais criticidade.

O que aconteceu, por exemplo, no caso “Escola Base”. De acordo com Luis Nassif do jornal de todos os brasis, os donos da Escola Base Icushiro Shimada e Maria Aparecida Shimada foram acusados de abusarem sexualmente dos alunos da escola. Sendo que na verdade, eles eram inocentes.

escola

Fotos da escola após a publicação da matéria

Os donos da escola chegaram a ser presos e a instituição foi atacada. O fato deles terem sido declarados inocentes, não irá apagar todo o sofrimento passado pela família, que poderia ser evitado caso houvesse mais cuidado na apuração. Essa foi uma realidade construída sem provas, que causou danos irreparáveis para a vida dessas pessoas.

Para saber mais da história clique AQUI.

Conclusão

Devido ao novo cenário híbrido e aos territórios informacionais, a informação alcança pessoas conectadas em todo o mundo, tornando a mobilidade informacional incontrolável. O jornalista se apropria dessa rede para construir uma nova realidade onde quer que ele esteja, sem muitas vezes tomar o cuidado de analisar com criticidade a situação.

Referências

Lemos, A. Cidade e mobilidade.Telefones celulares, funções pós-massivas e territórios informacionais. MATRIZes, v. 1, n. 1, 2007. Disponível em: http://www.facom.ufba.br/ciberpesquisa/andrelemos/Media1AndreLemos.pdf

Castro, A. Teorias do Jornalismo, Universidade e Profissionalização: Desenvolvimento Internacional e Impasses Brasileiros. 2013. Disponível em: http://www.bocc.ubi.pt/pag/castro-alexandre-2013-teorias-jornalismo.pdf

Nassif, Luis. O caso escola base, 20 anos depois. O Jornal de Todos os Brasis. 2014. Disponível em: http://jornalggn.com.br/noticia/o-caso-escola-base-20-anos-depois

 

Anúncios