O hibridismo homem-objeto e o jornalismo

O sujeito desconectado do objeto nunca existiu. O Homo habilis, nosso ancestral que viveu há aproximadamente 2,1 a 1,5 milhões de anos atrás, é conhecido justamente por sua habilidade para confeccionar e utilizar diversas ferramentas que possibilitaram, muitas vezes, sua sobrevivência. Fazendo com que, inclusive, mutações biológicas alterassem seu organismo com o passar do tempo. A evolução.

Cartas foram as ferramentas que, muitas vezes, permitiram a mudança do curso de guerras. Ou mesmo foram parte da causa de rebeliões. Telefones, rádios, celulares etc. Todos esses objetos alteraram a forma como vemos e lidamos com o mundo, socialmente, e a forma como realizamos nossas atividades, individualmente ou não.

Se você duvida, faça um teste básico: se usa celular touch screen há algum tempo, experimente teclar em um celular mais antigo, como o qwerty. Estranho ter que apertar teclas, não? Será que sempre foi preciso tanta força para mandar um sms?

O hibridismo no jornalismo

Isso não é diferente com o jornalista. Quem se espanta com o jornalismo produzido através de dispositivos móveis deve saber que nunca existiu jornalismo sem objeto. Papel, rádio, tv, internet e a cada dia uma nova descoberta. Sem eles, o que seria um jornalista? Ou, ainda, o jornalismo em si? Nem precisa tentar citar a fala. A língua, o idioma, também é um instrumento.

“Como agiria o “jornalismo” sem os editores, os repórteres, as agências de notícias, as indústrias culturais, os professores e escolas de comunicação, as empresas publicitárias, os distribuidores, o jornaleiro, o papel jornal, a banca de jornal, os computadores, os telefones, o celular, o fax e… a internet e suas expressões como o Twitter e a Web? Não caberia investigar caso a caso? Como pode um jornalista pensar e agir sem outros jornais, jornalistas, empresas, indústrias, publicidade, computadores, telefones, satélites etc.? Quem faz a ação é um sujeito não-híbrido livre de relações não instrumentais? Podemos separar de um lado “o jornalismo” e do outro as “ferramentas e meios”?” (Lemos, 2011)

O jornalismo é toda uma rede híbrida de atores humanos e não-humanos, como os citados acima. Ele só existe da forma como conhecemos porque homens e objetos se relacionam o tempo todo. Do mesmo modo, os objetos sozinhos não podem fazer jornalismo. É preciso que existam atores humanos no processo. É também por isso que não basta ter uma ferramenta como o celular para ser jornalista. Existem diversos processos associados à função. Além disso, objetos e humanos ora podem representar ação, ora podem ser apenas mediadores.

Todos os atores dessa rede (humanos ou não) são influenciados uns pelos outros e isso faz com que ela se modifique com o passar do tempo. Novos processos surgem, ressurgem, tomam para si elementos de outros e se remodelam continuamente (seguimos aqui um pouco do que se vê segundo os Estudos Culturais).

O bom jornalismo móvel – o desafio de entender/dominar a rede

Segundo Lemos, um bom trabalho será resultado de boas associações que um sujeito – nesse caso, o jornalista – fizer de humanos e não humanos. Cabe a nós, jornalistas, então, procurar formas de aliar as práticas jornalísticas, as tecnologias, outros sujeitos para produzir a “boa notícia”.

O jornalismo não se faz sozinho

Atualmente, temos um ótimo exemplo de matérias que não teriam existido se não fosse os dispositivos móveis. Jornalistas que cobriram conflitos através de redes sociais, por exemplo, como já falamos aqui. Nesses casos, os dispositivos móveis estão sendo atores importantes e ativos para a associação final no jornalismo: a notícia.

Referências

LEMOS, André. Things (and People) Are The Tools Of Revolution!. 2011. Disponível em http://andrelemos.info/things-and-people-are-the-tools-of-revolution/
HOMO habilis. Disponível em: http://www.avph.com.br/homohabilis.htm. Acesso em: 09 set. 2016.

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