O híbrido humano/objeto e a produção de conteúdos jornalísticos

Como já foi abordado em outras oportunidades neste espaço, a produção de conteúdos (sobretudo imagens) pelos dispositivos móveis vem trazendo profundas mudanças na difusão de notícias.

Nesta postagem, será abordada a relação de hibridismo que nasce a partir do momento que o cidadão passa a usar o seu celular inteligente como ferramenta actante na rede.

Citando o embate existente entre os defensores e opositores do porte de armas, Latour (2001) apresenta os argumentos materialista e sociológico, atribuídos respectivamente aos opositores e defensores do porte, para ilustrar o quão complexa é a relação entre homem e objeto.

“‘Armas matam pessoas’, é o slogan daqueles que procuram controlar a venda livre de armas de fogo. A isso replica a National Rifle Association (NRA) com outro slogan: ‘Armas não matam pessoas; pessoas matam pessoas’. O primeiro é materialista: a arma age em virtude de componentes materiais irredutíveis às qualidades sociais do atirador. (…) A NRA, por seu turno, oferece (o que é muito divertido, dadas as suas convicções políticas) uma versão sociológica que costuma ser associada à Esquerda: a arma não faz nada sozinha ou em consequência de seus componentes materiais. A arma é uma ferramenta, um meio, um veículo neutro à vontade humana”.

Latour (2001), por sua vez, é avesso aos pensamentos extremistas apresentados pelas correntes pró e contra o armamento e defende a ideia de que da relação entre homem e objeto, nesse caso a arma de fogo, surge um terceiro agente que produz ações que não o faria sem uma arma, ao mesmo tempo em que imprime determinado sentido ao objeto.

Algo do tipo: a arma, que foi pensada e projetada para cumprir uma função específica, necessita da ação humana (disparar o gatilho) para fechar o ciclo. De modo que o pesquisador atribui responsabilidades tanto ao objeto quanto ao humano que o manuseou.

Substituindo as armas pelos smartphones e o assassino em potencial pelo aspirante a jornalista, chegamos a uma equação semelhante: o aparelho por si só não é capaz de produzir conteúdos, em contrapartida, o humano que o manuseia de forma eficaz tem maior possibilidade de compartilhar fatos e questões na rede e com isso ampliar a comunicação.

A difusão de conhecimento, aliada à evolução dos smartphones no que diz respeito à produção de conteúdos, vem provocando, inclusive, atritos entre profissionais do campo da comunicação que utilizam equipamentos profissionais e os “amadores” que filmam, fotografam e editam com seus celulares.

Em setembro de 2015, o fotógrafo Lee Morris publicou um vídeo mostrando como é possível produzir fotos tão boas quantos as tiradas por câmeras DSLR, usando um iPhone 6s.

A publicação gerou polêmica entre os pares de Morris e despertou a ira de alguns fotógrafos mais tradicionais, que não enxergam no “amadorismo” dos celulares o capital social necessário para se equiparar às máquinas profissionais.

Assista ao vídeo:

Boa parte dos críticos das chamadas novas ferramentas de produção de conteúdos, no entanto, desconsidera o fato do produto final dos conteúdos de comunicação serem, nada mais nada menos, do que uma construção da realidade.

Ou seja, é uma leitura que o ator faz do ambiente que vem acompanhada das características (e limitações) do suporte que ele utiliza; seja uma câmera profissional ou um simples celular.

Desse modo, não há isenção, imparcialidade ou qualquer outra coisa que possa suscitar qualquer tipo de neutralidade em relação ao fato apresentado. A forma como é contada essa história, por sua vez, precisa obedecer uma construção convincente. E isso, mais uma vez, independe do objeto utilizado. Ao contrário, está muito mais ligada ao ator que opera o suporte.

Objetos Vs Rede Vs Relações Humanas

Para Lemos (2013), objetos como os smartphones em uso estão inseridos no que ele chama de “Internet  das  Coisas”, ou IoT, que nada mais é do que o “conjunto de redes,  sensores,  atuadores e objetos  ligados por  sistemas  informatizados  que  ampliam  a  comunicação  entre  pessoas  e  objetos e  entre os  objetos  de  forma autônoma,   automática   e  sensível  ao  contexto”.

De acordo com o pesquisador, a partir do momento que os objetos mudam ao ganhar funções infocomunicacionais (fotografar, por exemplo), as relações entre eles e os humanos também mudam, o que justifica as tensões entre os que defendem a utilização dos celulares para fins jornalísticos e aqueles contrários.

Referências:

Latour, B. Um coletivo de humanos e não-humanos (cap. 6). In: _____. A esperança de Pandora: ensaios sobre a realidade dos estudos científicos. Bauru: Edusc, 2001.

Lemos, A. Internet das coisas (cap. 6). In: _____. A comunicação das coisas: teoria ator-rede e cibercultura. São Paulo: Annablume, 2013.

O hibridismo homem-objeto e o jornalismo

O sujeito desconectado do objeto nunca existiu. O Homo habilis, nosso ancestral que viveu há aproximadamente 2,1 a 1,5 milhões de anos atrás, é conhecido justamente por sua habilidade para confeccionar e utilizar diversas ferramentas que possibilitaram, muitas vezes, sua sobrevivência. Fazendo com que, inclusive, mutações biológicas alterassem seu organismo com o passar do tempo. A evolução.

Cartas foram as ferramentas que, muitas vezes, permitiram a mudança do curso de guerras. Ou mesmo foram parte da causa de rebeliões. Telefones, rádios, celulares etc. Todos esses objetos alteraram a forma como vemos e lidamos com o mundo, socialmente, e a forma como realizamos nossas atividades, individualmente ou não.

Se você duvida, faça um teste básico: se usa celular touch screen há algum tempo, experimente teclar em um celular mais antigo, como o qwerty. Estranho ter que apertar teclas, não? Será que sempre foi preciso tanta força para mandar um sms?

O hibridismo no jornalismo

Isso não é diferente com o jornalista. Quem se espanta com o jornalismo produzido através de dispositivos móveis deve saber que nunca existiu jornalismo sem objeto. Papel, rádio, tv, internet e a cada dia uma nova descoberta. Sem eles, o que seria um jornalista? Ou, ainda, o jornalismo em si? Nem precisa tentar citar a fala. A língua, o idioma, também é um instrumento.

“Como agiria o “jornalismo” sem os editores, os repórteres, as agências de notícias, as indústrias culturais, os professores e escolas de comunicação, as empresas publicitárias, os distribuidores, o jornaleiro, o papel jornal, a banca de jornal, os computadores, os telefones, o celular, o fax e… a internet e suas expressões como o Twitter e a Web? Não caberia investigar caso a caso? Como pode um jornalista pensar e agir sem outros jornais, jornalistas, empresas, indústrias, publicidade, computadores, telefones, satélites etc.? Quem faz a ação é um sujeito não-híbrido livre de relações não instrumentais? Podemos separar de um lado “o jornalismo” e do outro as “ferramentas e meios”?” (Lemos, 2011)

O jornalismo é toda uma rede híbrida de atores humanos e não-humanos, como os citados acima. Ele só existe da forma como conhecemos porque homens e objetos se relacionam o tempo todo. Do mesmo modo, os objetos sozinhos não podem fazer jornalismo. É preciso que existam atores humanos no processo. É também por isso que não basta ter uma ferramenta como o celular para ser jornalista. Existem diversos processos associados à função. Além disso, objetos e humanos ora podem representar ação, ora podem ser apenas mediadores.

Todos os atores dessa rede (humanos ou não) são influenciados uns pelos outros e isso faz com que ela se modifique com o passar do tempo. Novos processos surgem, ressurgem, tomam para si elementos de outros e se remodelam continuamente (seguimos aqui um pouco do que se vê segundo os Estudos Culturais).

O bom jornalismo móvel – o desafio de entender/dominar a rede

Segundo Lemos, um bom trabalho será resultado de boas associações que um sujeito – nesse caso, o jornalista – fizer de humanos e não humanos. Cabe a nós, jornalistas, então, procurar formas de aliar as práticas jornalísticas, as tecnologias, outros sujeitos para produzir a “boa notícia”.

O jornalismo não se faz sozinho

Atualmente, temos um ótimo exemplo de matérias que não teriam existido se não fosse os dispositivos móveis. Jornalistas que cobriram conflitos através de redes sociais, por exemplo, como já falamos aqui. Nesses casos, os dispositivos móveis estão sendo atores importantes e ativos para a associação final no jornalismo: a notícia.

Referências

LEMOS, André. Things (and People) Are The Tools Of Revolution!. 2011. Disponível em http://andrelemos.info/things-and-people-are-the-tools-of-revolution/
HOMO habilis. Disponível em: http://www.avph.com.br/homohabilis.htm. Acesso em: 09 set. 2016.