Sorria, você está sendo vigiado

Desde que se instituiu, o Jornalismo tem como uma das suas principais atribuições vigiar as falha da sociedade. O conceito da Imprensa Watchdog – o cão de guarda, um dos mais divulgados no estudo da comunicação, baseia-se na noção de fidelidade e proteção dos cães. É a representação do jornalista como um verdadeiro vigia social perante os desvios, as prepotências e as injustiças (Brun, 2011).

Para Brun (2011), a afirmação do conceito Watchdog provém da crise no sistema político. Em uma sociedade que diariamente é colocada frente a frente com escândalos e corrupção é natural que a imprensa se posicione ou seja posicionada como uma instituição vigilante da máquina pública.

Na sociedade contemporânea, cada vez mais inundada pelos dispositivos móveis de geração de conteúdo e pela rápida disseminação desses conteúdos pelas redes sociais, o exercício da vigilância deixou de ser monopolizada pela mídia corporativa e passou a ser um atributo muitos cidadãos comuns. De modo que hoje cada pessoa munida de um smartphone pode ser um vigia.

As teletelas, exemplificadas pelo ficcionista George Orwell na obra 1984, se multiplicaram e assumiram diferentes configurações nas mãos de pessoas com diferentes olhares e interesses, mas com o objetivo comum ser um membro ativo na disseminação de informações.

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Cena de 1984 (Foto: Reprodução)

O contexto vai ao encontro da ideia de Deleuze (1992) quando ele diz que as sociedades de controle operam por máquinas de informática e computadores, cujo perigo passivo é a interferência, e o ativo a pirataria e a introdução de vírus.

Uma infinidade de flagrantes registrados por pessoas comuns diariamente viajam pela internet. Algumas dessas situações viralizam a ponto de provocarem discussões sérias, ou nem tanto, sobre o assunto e em casos mais extremos levar pessoas a serem execradas no ambiente digital.

Em agosto deste ano, a foto de uma mulher com o seu filho recém-nascido no aeroporto causou revolta nas rede sociais. O motivo foi o fato da criança estar deitada no chão enquanto a mãe mexia no aparelho celular. A imagem, que foi feita por um usuário da rede social Snapchat, rapidamente colecionou milhares de curtidas e compartilhamentos.

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“Quem deixa um bebê no chão”, diz a legenda (Foto: Reprodução)

Outro caso que chamou a atenção aconteceu com o ator José de Abreu. No mês de abril, o artista estava em um restaurante em São Paulo e, ao ser provocado pelo seu posicionamento político, reagiu cuspindo nos agressores. Mais uma vez, a cena foi filmada, compartilhada e rapidamente repercutiu.

Veja vídeo:

E um exemplo mais recente aconteceu no Japão, quando um operador de trem-bala foi fotografado com os pés para cima enquanto pilotava a composição, a mais de 280 km/h. Após a viralização da imagem, que chegou ao conhecimento da direção dos administradores do serviço, o homem foi suspenso das suas atividades.

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Foto: Reprodução/Twitter

Nas três situações citadas, pode-se dizer que houve  o exercício da função do jornalista por não profissionais. O trabalho, por sua vez, foi feito de modo incompleto, uma vez que o bom exercício jornalístico manda que ambas as partes envolvidas na notícia sejam ouvidas. O que o Manual de Redação do Jornal Folha de S.Paulo chama de cruzamento de informação e outro lado.

“Quando o repórter dispõe de uma informação que possa ser considerada prejudicial a uma pessoa ou entidade, é obrigatório que ele ouça e publique com destaque proporcional a versão da parte atingida”, diz o Manual.

Além disso, outro fato ainda mais grave decorrente dessa publicação de conteúdos de forma pouco criteriosa, é a replicação desses conteúdos pela imprensa formal, que ocorre também sem apuração. O que fere os princípios da profissão.

Referências
Brun, E.F; O cão de guarda da sociedade. 15 de março de 2011. Ed: 633. In: http://observatoriodaimprensa.com.br/diretorio-academico/o-cao-de-guarda-da-sociedade/

Orwell, G. 1984. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2005. (capítulo 1)

Deleuze, G. Post-Scriptum sobre as sociedades de controle. In: _____. Conversações: 1972-1990, Editora 34, pp. 219-226, 1992. Disponível em: http://www.portalgens.com.br/filosofia/textos/sociedades_de_controle_deleuze.pdf

Manual de redação: Folha de S.Paulo. 19ª ed. – São Paulo: Publifolha, 2013.

 

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