O híbrido humano/objeto e a produção de conteúdos jornalísticos

Como já foi abordado em outras oportunidades neste espaço, a produção de conteúdos (sobretudo imagens) pelos dispositivos móveis vem trazendo profundas mudanças na difusão de notícias.

Nesta postagem, será abordada a relação de hibridismo que nasce a partir do momento que o cidadão passa a usar o seu celular inteligente como ferramenta actante na rede.

Citando o embate existente entre os defensores e opositores do porte de armas, Latour (2001) apresenta os argumentos materialista e sociológico, atribuídos respectivamente aos opositores e defensores do porte, para ilustrar o quão complexa é a relação entre homem e objeto.

“‘Armas matam pessoas’, é o slogan daqueles que procuram controlar a venda livre de armas de fogo. A isso replica a National Rifle Association (NRA) com outro slogan: ‘Armas não matam pessoas; pessoas matam pessoas’. O primeiro é materialista: a arma age em virtude de componentes materiais irredutíveis às qualidades sociais do atirador. (…) A NRA, por seu turno, oferece (o que é muito divertido, dadas as suas convicções políticas) uma versão sociológica que costuma ser associada à Esquerda: a arma não faz nada sozinha ou em consequência de seus componentes materiais. A arma é uma ferramenta, um meio, um veículo neutro à vontade humana”.

Latour (2001), por sua vez, é avesso aos pensamentos extremistas apresentados pelas correntes pró e contra o armamento e defende a ideia de que da relação entre homem e objeto, nesse caso a arma de fogo, surge um terceiro agente que produz ações que não o faria sem uma arma, ao mesmo tempo em que imprime determinado sentido ao objeto.

Algo do tipo: a arma, que foi pensada e projetada para cumprir uma função específica, necessita da ação humana (disparar o gatilho) para fechar o ciclo. De modo que o pesquisador atribui responsabilidades tanto ao objeto quanto ao humano que o manuseou.

Substituindo as armas pelos smartphones e o assassino em potencial pelo aspirante a jornalista, chegamos a uma equação semelhante: o aparelho por si só não é capaz de produzir conteúdos, em contrapartida, o humano que o manuseia de forma eficaz tem maior possibilidade de compartilhar fatos e questões na rede e com isso ampliar a comunicação.

A difusão de conhecimento, aliada à evolução dos smartphones no que diz respeito à produção de conteúdos, vem provocando, inclusive, atritos entre profissionais do campo da comunicação que utilizam equipamentos profissionais e os “amadores” que filmam, fotografam e editam com seus celulares.

Em setembro de 2015, o fotógrafo Lee Morris publicou um vídeo mostrando como é possível produzir fotos tão boas quantos as tiradas por câmeras DSLR, usando um iPhone 6s.

A publicação gerou polêmica entre os pares de Morris e despertou a ira de alguns fotógrafos mais tradicionais, que não enxergam no “amadorismo” dos celulares o capital social necessário para se equiparar às máquinas profissionais.

Assista ao vídeo:

Boa parte dos críticos das chamadas novas ferramentas de produção de conteúdos, no entanto, desconsidera o fato do produto final dos conteúdos de comunicação serem, nada mais nada menos, do que uma construção da realidade.

Ou seja, é uma leitura que o ator faz do ambiente que vem acompanhada das características (e limitações) do suporte que ele utiliza; seja uma câmera profissional ou um simples celular.

Desse modo, não há isenção, imparcialidade ou qualquer outra coisa que possa suscitar qualquer tipo de neutralidade em relação ao fato apresentado. A forma como é contada essa história, por sua vez, precisa obedecer uma construção convincente. E isso, mais uma vez, independe do objeto utilizado. Ao contrário, está muito mais ligada ao ator que opera o suporte.

Objetos Vs Rede Vs Relações Humanas

Para Lemos (2013), objetos como os smartphones em uso estão inseridos no que ele chama de “Internet  das  Coisas”, ou IoT, que nada mais é do que o “conjunto de redes,  sensores,  atuadores e objetos  ligados por  sistemas  informatizados  que  ampliam  a  comunicação  entre  pessoas  e  objetos e  entre os  objetos  de  forma autônoma,   automática   e  sensível  ao  contexto”.

De acordo com o pesquisador, a partir do momento que os objetos mudam ao ganhar funções infocomunicacionais (fotografar, por exemplo), as relações entre eles e os humanos também mudam, o que justifica as tensões entre os que defendem a utilização dos celulares para fins jornalísticos e aqueles contrários.

Referências:

Latour, B. Um coletivo de humanos e não-humanos (cap. 6). In: _____. A esperança de Pandora: ensaios sobre a realidade dos estudos científicos. Bauru: Edusc, 2001.

Lemos, A. Internet das coisas (cap. 6). In: _____. A comunicação das coisas: teoria ator-rede e cibercultura. São Paulo: Annablume, 2013.

Os problemas das mídias sociais

help“As mídias sociais deram o direito à fala a legiões de imbecis que, anteriormente, falavam só no bar, depois de uma taça de vinho, sem causar dano à coletividade. Diziam imediatamente a eles para calar a boca, enquanto agora eles têm o mesmo direito à fala que um ganhador do Prêmio Nobel.” A polêmica fala de Umberto Eco (1932 – 2016), autor italiano e pilar internacional de toda uma disciplina que marcou os estudos em Comunicação (a semiologia), foi dita após a cerimônia na Universidade de Turim na qual recebeu o título de doutor honoris causa em comunicação e cultura, em 2015. O autor de “O nome da rosa” (1980) já havia demonstrado seu descontentamento em relação às novas mídias outras vezes: em 2007, em entrevista para a Revista Época, afirmou que “os tablets são mais para entretenimento do que para estudo”, desprezando os e-books, ainda novidade no mercado editorial. Há certo conservadorismo e até mesmo algo elitista nesta posição (é de fato preciso ser um ganhador de um Nobel de Literatura para discutir romances?), mas a fala de Eco nos faz pensar nos problemas do uso corrente das mídias sociais, uma das mais proeminentes ferramentas de articulação e interação social na rede, e sua relação com o jornalismo móvel.

O que são mídias sociais?

Quando falamos de mídias sociais, falamos de ferramentas que servem ao compartilhamento e à criação colaborativa de informação dos mais diversos formatos. Blogs como este próprio, microblogs (como o Twitter e o Snapchat) e redes sociais (como o Orkut, o Facebook e o Google Plus) fazem parte deste universo, embora as classificações volta e meia se embaralhem. Garton, Haythornthwaite e Wellman (1997), citados por Raquel Recuero (2009, p. 15), definem as supracitadas redes sociais como uma rede de computadores que conecta uma rede de pessoas e organizações.

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O mensageiro do IRC, criado em 1988, com um design simples e um tanto rústico. Desenvolvido  em servidores na Universidade da Finlândia, o IRC foi um protocolo de comunicação e troca de arquivos muito importante nos anos 1990 (durante a Guerra do Golfo, em 1993, o IRC foi utilizado para divulgar notícias do Oriente Médio em tempo real). Ao fim do século, foi criado o mIRC, que possibilitava chats e conversas privadas, nas quais os usuários podiam se identificar com nicks e cores personalizados. (Imagem: Canal Tech)

Estas mídias podem se articular com o jornalismo móvel de várias maneiras: empresas jornalísticas podem se apropriar das redes para a realização de boletins ou debates (os debates da TV Folha, por exemplo, são transmitidos ao vivo pelo Facebook e costumam render bons números de visualizações, principalmente quando os convidados são personalidades polêmicas na web, como Sara Winter e Kim Kataguiri), as pessoas podem, independentes, noticiar acontecimentos in loco, fazendo, ou não, parte de uma organização informal, como no midialivrismo do Mídia Ninja etc.

Quem são os atores na rede?

Ao abordar a forte presença das representações de pessoalidades nas redes sociais (desconstruindo a concepção inicial de que, na internet, não é tão importante quem somos e onde estamos, mas o que dizemos), Recuero afirma que “é preciso colocar rostos e informações que geram individualidade e empatia na informação geralmente anônima do ciberespaço” (2009, p. 27). As redes sociais online marcam um tempo em que a anarquia e a liberdade já não são as características mais expressivas da rede, como se tinha anteriormente (hoje são os hacktivistas que defendem esta perspectiva).

Desde antes do que chamamos de redes sociais online há essa pessoalização da rede. O blog, cujo formato existe provavelmente desde 1997, por exemplo, é definido por Denise Schittine (2004, p. 60) como “uma adaptação virtual de um refúgio que o indivíduo já havia criado anteriormente para aumentar seu espaço privado”.

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Dirigido por David Fincher, A Rede Social (The Social Network, 2010) conta a história da origem do Facebook. No filme e na vida real, o site surgiu com o nome FaceMash, criado por Mark Zuckerberg com o algorítmo desenvolvido por Eduardo Saverin, com o intuito inicial de eleger as garotas mais atraentes de Harvard. Hoje, o Facebook é a mais popular das redes sociais online, reunindo mais de 1 bilhão de usuário ativos  pelo mundo. (Gif: Rebloggy)

Não parece uma definição muito diferente da concepção de redes sociais online mais recentes, como o Orkut e o Facebook, ambas criadas em 2004. Raquel Recuero põe em foco os atores sociais (ou melhor, as representações dos atores sociais), pessoas que atuam de forma a moldar as estruturas sociais, através da interação e da constituição dos laços sociais (2009, p. 25), pautando o permanente processo de construção e expressão de suas identidades no ciberespaço (p. 26).

O que são laços sociais?

Estes laços sociais, segundo Recuero, são formas mais institucionalizadas de conexão entre atores, constituídos no tempo e através da interação social (2009, p. 28). Eles podem ser associativos (mais fracos, definidos por uma interação reativa; aceitar uma solicitação de amizade no Facebook, por exemplo) ou dialógicos (mais fortes, definidos por uma interação mútua, como trocar scraps com alguém no Orkut).

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Como Umberto Eco, o escritor português José Saramago (1922 – 2010) também olhava desconfiado para as interações sociais mediadas pelo computador. “Os tais 140 caracteres reflectem algo que já conhecíamos: a tendência para o monossílabo como forma de comunicação. De degrau em degrau, vamos descemos até o grunhido”, disse, sobre o sucesso do Twitter, em entrevista para O Globo, em 2009. (Imagem: Arquivo O Globo)

É importante pensar nos laços sociais porque a maneira como eles são compreendidos pela internet, cada vez mais conduzida por algorítmos que vão se tornando mais complexos e sofisticados diariamente (a cada ano, o Google realiza aproximadamente 500 aprimoramentos no código do seu sistema, segundo matéria da Folha de S.Paulo de 2014), pois as redes sociais irão se dedicar a manutenção destes, buscando preservar suas ligações reais. Também nossas interações mais solitárias serão estudadas por códigos em toda a rede; nossas pesquisas no Google, nossas preferências musicais no Spotify, nossos likes e demais reações no Facebook.

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Apenas 20% das postagens dos amigos do usuário médio do Facebook chegam a ser exibidas em seu feed. (Infográfico: Filipe Rocha/Folhapress/2014)

 

Quais são os problemas nas interações mediadas pelo computador?

Cercado por nossas próprias preferências, acabamos por interagir numa comunidade virtual feita por e para nós próprios. Isso é prejudicial por vários motivos; ao não se deparar com opiniões divergentes, diferentes narrativas e pontos de vista deixam de dialogar, prejudicando o debate público em várias instâncias e relativizando o livre acesso à informação. Em entrevista à Revista Época, em agosto de 2012, o ativista digital americano Eli Pariser afirma que

Quando você lê uma revista ou liga a televisão, você tem uma ideia de qual é a linha editorial daquela publicação ou canal. O mesmo vale, mais ainda, quando você conversa pessoalmente com um amigo cujas opiniões políticas você conhece. Você sabe quais pontos de vista estão lá e quais não estão, e sabe onde encontrar os que ficaram de fora. No Google e no Facebook, nada é explícito. Você não sabe em que perfil de usuário os sites te enquadram nem em que informações se basearam para chegar àquela conclusão. Não é possível saber o que você está perdendo, que partes da internet estão fora de seu alcance. As informações desaparecem sem aviso. (PARISER, 2012)

Uma rede pouco neutra pode prejudicar o jornalismo na medida em que informações de inegável relevância são ocultadas para não ferir as preferências pessoais, políticas ou ideológicas do usuário da rede. A forma como as redes sociais online se configuram atualmente lembram, de certa forma, os perigos de uma história única, termo popularizado pela romancista e ativista nigeriana Chimamanda Adiche: na ausência do contraditório, toma-se a parte pelo todo e não se percebe as reais nuances e minúncias do mundo. O jornalismo tem muito a perder neste contexto, pois ele é, em essência, o contato com o contraditório, o embate de diferentes versões de uma mesma história, um espaço de disputa de perspectivas, opiniões, pontos de vista, narrativas.

 

 

Anexos:

Tweet de Vinícius Perez (@chinisalada)

 


Palestra de Eli Pariser no TED 2011 sobre os Filtros Bolha.

 


Palestra de Chimamanda Adichie no TED 2009 sobre O perigo da história única. A fala de Adichie trás uma ideia de enfrentamento dos valores dominantes de uma cultura transnacional através da literatura.

 

Referências:

SCHITTINE, Denise. Blog: comunicação e escrita íntima na internet. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004.

Recuero, R., Redes Sociais na Internet., Porto Alegre, Sulina, 2009. (Cap. 1)

http://www1.folha.uol.com.br/tec/2014/03/1432549-quem-decide-o-que-voce-ve-na-internet.shtml
<Acesso em 25 de agosto de 2016>

http://revistaepoca.globo.com/ideias/noticia/2012/08/internet-esconde-quem-discorda-de-voce.html
<Acesso em 25 de agosto de 2016 >

http://canaltech.com.br/materia/nostalgia/o-bom-e-velho-mirc-nao-morreu-112/ <Acesso em 26 de agosto de 2016>

 

Os dispositivos móveis e a construção das novas mídias jornalístias

A difusão cada vez maior dos dispositivos móveis de comunicação, sobretudo os smatphones, tem servido de mola propulsora para o desenvolvimento das novas mídias jornalísticas.

Jornalismo é definido por Bechara (2011) como sendo a atividade profissional que consiste em coletar e investigar informações, editar e publicar notícias e reportagens; sendo a imprensa a totalidade dos jornalistas e meios de comunicação.

Pelos celulares, são produzidos e distribuídos cada vez mais e diversificados conteúdos em um espaço de tempo cada vez menor. Lemos (2009) define esses aparelhos móveis como “teletudo”, devido a capacidade de convergência de diversas funções que eles possuem, conectando vozes, dados, imagens fixas e animadas, vídeos, música e mensagens de texto.

Diante disso, a produção da notícia foi democratizada e uma série de canais, definidos genericamente como alternativos, surgiu e hoje divide o protagonismo jornalístico com a imprensa corporativa/tradicional.

Essa abertura da produção da notícia está diretamente relacionada a uma das leis do processo atual da cibercultura, a Liberação do Polo de Emissão. Por esse princípio, o antigo receptor passa a agir também como emissor de informação, de forma livre e multimodal (Lemos, 2009).

Lemos (2009) cita como exemplo da liberação do polo de emissão as imagens de catástrofes naturais, ataques terroristas e guerrilhas urbanas ocorridos recentemente e que foram registradas através de câmeras de smartphones de pessoas que presenciaram os fatos. Imagens essas que circularam o mundo e foram replicadas maciçamente, inclusive pela mídia tradicional.

A afirmação do autor supracitado vai ao encontro da previsão de Jenkins (2009) que, citando Pierre Levy, disse que a distinção entre autores e leitores, produtores e espectadores, criadores e intérpretes se dissolverá a ponto de formar um circuito de expressão, com cada participante trabalhando para sustentar a atividade dos outros.

Uma gramática em construção

Evidente que a gramática adotada pela nova mídia não segue a linha dos veículos tradicionais. Até porque, muitos desses novos comunicadores não são necessariamente oriundos das escolas de comunicação e, por isso, não carregam as imposições acadêmicas ou a padronização dos veículos corporativos.

Para Vilas Boas (1996), o texto jornalístico carrega em si especificidades, de modo que o uso de técnicas que determinarão um estilo próprio se faz necessário para dar ao leitor o entendimento de que à sua frente está um texto jornalístico.

A linguagem das mídias emergentes, de certo modo, subverte o classicismo das tradicionais, colocando em xeque a relação do receptor com a ideia convencional de texto jornalístico.

Os enquadramentos pasteurizados, no caso das fotografias e vídeos, deram lugar a imagens tremidas, borradas e repletas de ruídos, dos aparelhos celulares. Quando se trata de textos escritos, Squarsi (2011) afirma que na rede a notícia é um ser vivo com pernas e asas que se modifica ao longo do dia. “O título e a chamada mudam tantas vezes quantas forem necessárias”.

A pesquisadora ressalta que os textos nesse formato não podem superar o tamanho das telas e devem ter a leitura facilitada por hiperlinks, vídeos, galerias de fotos e outros recursos multimídia, afim de acompanhar o ritmo do leitor moderno.

As linguagens dialogam

Apesar das diferenças entre as linguagens, a nova mídia absorve ideias da irmã tradicional. Ainda de acordo com Squarisi (2011), o conceito “antigo” da pirâmide invertida, o lide, nunca esteve tão na moda quanto com o jornalismo online, sobretudo o feito por e para smartphones.

A necessidade de informar o fato o mais rápido e num menor número de linhas possível, obriga os jornalistas digitais a serem precisos. Assim, eles necessitam responder o que; quem; quando; como; onde; e porque da notícia já na abertura do texto.

Em uma analogia da Mídia Nova com o Cinema Novo – movimento brasileiro dos anos 1960 cujo lema era “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça” – que se propôs a romper os paradigmas vigentes na época, ou seja, inaugurar um cinema rompesse com o tradicional; ele também se baseou em movimentos já existentes: o Neorrealismo Italiano e a Nouvelle Vague Francesa (Kemp, 2011).

Ainda tomando o cinema como exemplo, Jenkins (2009) afirma que na era do pós-modernismo nenhum filme pode ser experimentado com olhos virgens; todos são interpretados à luz de outros filmes. Ou seja, possuem referências já conhecidas.

Esse diálogos entre o tradicional e o novo retrata perfeitamente o hibridismo entre as culturas da comunicação, algo tão necessário para a sua atualização e, acima de tudo, sobrevivência (Lemos, 2009).

Mídia Ninja: um caso de sucesso

A rede de comunicadores e mídia Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação (NINJA) é, talvez, o exemplo brasileiro mais bem sucedido de nova mídia que tem como um dos seus pilares a produção de conteúdos por dispositivos móveis.

“Apostamos na lógica colaborativa de criação e compartilhamento de conteúdos, característica da sociedade em rede, para realizar reportagens, documentários e investigações no Brasil e no mundo”, descreve o coletivo em sua página no Facebook.

“Vivemos uma cultura peer­to­peer (P2P), que permite a troca de informações diretas entre as pessoas, sem a presença dos velhos intermediários. (…) Neste novo tempo, emergem os ‘cidadãos multimídia’, com capacidade de construir sua opinião e compartilha-la no ambiente virtual”, completa o texto.

Martinez e Persichetti (2015) compararam as coberturas fotojornalística do Mídia Ninja e da Folha de S.Paulo durante a abertura da Copa do Mundo de 2014. Segundo os autores, o Mídia Ninja apresentou uma cobertura diversificada do evento, com fotografias irregulares, vívidas, que buscavam capturar o evento no calor do momento.

Enquanto a Folha se preocupou apenas em destacar os elementos da violência do evento, especialmente os acontecimentos que tiveram impacto direto na imprensa internacional que veio ao Brasil cobrir a Copa.

As três imagens a seguir fazem parte da cobertura do Mídia Ninja da abertura da Copa
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Foto: Reprodução Mídia Ninja

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Foto: Reprodução/Mídia Ninja

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Foto: Reprodução/Mídia Ninja

As fotos do Mídia Ninja foram legendadas com textos curtos, informais, quase ingênuos. Essa opção textual, segundo os autores do estudo, se deu por conta da pressa para liberar o material para os espectadores ou pela tentativa de passar para esse espectador a sensação de uma cobertura em tempo real.

Prisão de Eduardo Suplicy

Outro exemplo de cobertura do Mídia Ninja de grande repercussão foi o episódio envolvendo a prisão do ex-senador Eduardo Suplicy, em julho deste ano. O político de 75 anos foi detido após protestar contra reintegração de posse na cidade de São Paulo.

Inúmeros vídeos mostrando Suplicy sendo carregado pelos policiais circularam na internet naquele 25 de julho. Dentre eles, o do Mídia Ninja, que foi emoldurado no Twitter do coletivo pela legenda: “ABSURDO! Eduardo Suplicy acaba de ser detido pela PM ao proteger famílias de uma reintegração de posse na Zona Sul”.

Assista ao vídeo:

Não há inocentes no universo midiático

Apesar dos novos veículos representarem um outro ponto de vista em relação aos fatos, eles não são necessariamente mais imparciais do que os meios tradicionais. Em relação a isso, Martinez e Persichetti (2015) afirmam que não há olhar inocente e que por trás de qualquer imagem existe um olho ideológico que pretende apresentar um ponto de vista acerca de um determinado assunto.

Conclusões

Os smartphones de certo modo favoreceram as pessoas a colaborarem com a produção jornalística. Através desses computadores de bolso, cidadãos comuns podem hoje ocupar o espaço que até pouco tempo atrás era exclusivo de uma minoria controlada por grandes conglomerados midiáticos.

Essas grandes empresas de mídia, por sua vez, ainda exercem forte influência na difusão de conteúdos jornalísticos. Mesmo porque elas souberam se apropriar das ferramentas que compõem as novas mídias (redes sociais, versões mobile, etc) para sustentar a forma e o conteúdo que vêm repetindo através dos veículos de comunicação de massa.

É inegável, porém, que a popularização do smartphone, somada à melhoria dos serviços de banda larga, difusão de conhecimento a respeito do uso da tecnologia para a produção de conteúdos, dentre outros fatores, vêm contribuindo para a democratização da emissão de opiniões através de conteúdos jornalísticos e, consequentemente, para o enriquecimento do debate de ideias.

Referências:

LEMOS, A. Cibercultura como território recombinante.A cibercultura e seu espelho: campo de conhecimento emergente e nova vivência humana na era da imersão interativa. São Paulo: ABCiber, p. 38-46, 2009. Disponível em: http://www.com.ufv.br/cibercultura/wp-content/uploads/2014/02/01.-Andr%C3%A9-Lemos-Cibercultura-como-Territ%C3%B3rio-Recombinante.pdf

JENKINS, H., Cultura da Convergência, RJ. Aleph, 2009.

MARTINEZ, M. PERSICHETTI, S. Mídia Ninja: a narrativa fotojornalística brasileira na era digital. Líbero – São Paulo – v.18, n.35, p.55-64, jan./jun. de 2015.

VILAS BOAS, S. O estilo magazine: o texto em revista/Sergio Vilas Boas. – São Paulo: Summus, 1996. – (Coleção Novas Buscas em Comunicação; v.52), p.7.

BECHARA, E. Dicionário da língua portuguesa Evanildo Bechara/Evanildo Bechara – 1.ed. – Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2011.

KEMP, P. Tudo Sobre Cinema [tradução de Fabiano Morais et al];  Rio de Janeiro: Sextante, 2011. p.264-265.

SQUARISI, D. Manual de Redação e Estilo para Mídias Convergentes. –São Paulo: Geração Editorial, 2011. p.54-56.

Anexo:

Confira a entrevista de Bruno Torturra e Pablo Capilé, fundadores do Mídia Ninja, ao programa da TVE Roda Viva

A influência dos dispositivos móveis no jornalismo/jornalistas tradicionais

Com a massificação dos dispositivos inteligentes de comunicação móvel, os veículos de comunicação tradicionais passaram a se utilizar dessas novas plataformas para difusão dos seus conteúdos. Assim, vêm surgindo uma série de ferramentas (aplicativos, sobretudo) com o intuito de levar as rádios, TVs e jornais para dentro dos tablets e smarthphones.

Apesar das plataformas móveis servirem originalmente para o escoamento do conteúdo produzido nas mídias clássicas, esses novos dispositivos têm influenciado também a forma de se fazer jornalismo. Não raramente, profissionais de imprensa compartilham conteúdos jornalísticos via smartphone sem que o material passe pelo banho de edição de outrora (Polydoro e Costa, 2014).

Como descreveu Firmino (2015), a apropriação do aparato permitiu a expansão das iniciativas de emissão diretamente dos lugares dos acontecimentos. O afã em compartilhar notícias se dê, talvez, pelo fato de atualmente a funcionalidade sobrepor à qualidade (Sennett, 2009), uma vez que a rapidez na difusão das notícias tornou-se, mais do que nunca, fundamental para o sucesso econômico do veículo.

A influência dos dispositivos móveis na mídia tradicional se faz presente ainda em reportagens que, mesmo gravadas com câmeras de TV tradicionais, se utilizam de movimentos ao estilo “self”.

“Nesta nova e sempre mutante economia da atenção , vídeos produzidos de forma não profissionais, por vezes agudamente rudimentares, expostos e exibidos no Youtube ou em redes sociais como o Facebook, disputam audiência com os programas de televisão, o cinema e outros produtos audiovisuais institucionalizados – que por sua vez, mimetizam a estética de tais imagens ou apropriam-se dos próprios vídeos como matéria-prima na composição da narrativa”, (Polydoro e Costa, 2014).

Quem não se lembra do vídeo “Senhora”, onde uma repórter da Globo sai correndo com o seu câmera atrás de uma servidora pública fantasma. Além disso, alguns apresentadores se declaram ávidos usuários dos smartphones no ambiente de trabalho.

Veja vídeo:

Caso Boechat
No dia 8 de julho deste ano, o Jornal da Band apresentou a alternativa, que entrou no ar na segunda-feira seguinte, de assistir ao programa pela rede social Facebook. A matéria fez questão de ressaltar a possibilidade dos espectadores interagirem com os apresentadores através dos comentários enviados por tablets e celulares.

Ao voltar para a bancada, o âncora Ricardo Boechat revelou que a novidade implantada pelo veículo apenas tornaria legítimo algo que ele e a companheira de bancada Paloma Tocci já faziam de modo “clandestino”. O bem humorado apresentador tornou público que costuma usar o smartphone enquanto apresenta o jornal para responder comentários de espectadores.

Clique AQUI para assistir a matéria

“A chegada do Jornal da Band ao Facebook vai dar escada de milhões a algo que nós dois [aponta para Paloma Tocci] já praticamos aqui na bancada meio que indisciplinadamente. Ambos trazemos os nossos celulares [mostram os aparelhos] para a bancada do Jornal da Band. Não só trazemos como consultamos as mensagens que nos chegam e também respondemos. Ou seja, é a ampliação de uma prática que já vinha sendo feita aqui, meio que clandestinamente e agora chega ao Facebook para que você possa interagir conosco em uma escala muito maior”, disse Boechat.

Para Squarisi (2011), a melhor maneira de apresentar um produto jornalístico é aquela que seja mais atraente e adequada ao receptor. A pesquisadora destaca ainda a importância dos veículos buscarem uma interação hipermídia. O Jornal da Band ao migrar para o Facebook deu um passo nesse sentido.

Além do que, o jornal estreita ainda os laços com o seu receptor e faz dele agente colaborativo da elaboração do produto; colaboração esta que vem sendo crucial para o desenvolvimento dos aparatos e técnicas da comunicação, como foi o caso da evolução dos aparelhos de telefones celular (Sennet, 2009).

O sapato de André Rizek
O noticiário esportivo Redação Sportv é outro exemplo de como o smartphone tem influenciado jornalismo e jornalista. O apresentador André Rizek durante quase todo o programa está municiado do seu aparelho celular. Esse, no entanto, não é um ato de contravenção e sim um elemento do programa que tem na interação direta com o público, sobretudo via Twitter, uma das suas principais armas.

Em muitos momentos, Rizek emparelha o conteúdo da tela do smartphone com a imagem exibida pela TV. De modo que o espectador passa a compartilhar diretamente com o âncora o que se passa na intimidade do celular do apresentador, aproximando o estúdio da sala de casa do receptor.

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André Rizek durante o Redação Sportv (Foto: Reprodução)

Tamanha é a intimidade e a velocidade na troca de informação entre Rizek e seu público que, durante o programa do dia 18 de abril deste ano, na saída para o intervalo comercial, a câmera flagrou o tênis do apresentador, sugerindo que ele estivesse descalço. Imediatamente, choveram Tweets sobre o pé do Rizek e, assim que o programa voltou ao ar, ele se desculpou pela situação inusitada e justificou o embaraço.

“Estou com um corte (no pé) e não estou conseguindo calçar o sapato, então deixei o sapato ali a parte, mas achei que ninguém iria perceber. Mas eu fiquei impressionado com a quantidade das pessoas que conseguiu perceber que estou sem o sapato. Foi mal, galera”, disse.

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Conclusão
O que se percebe no momento é uma busca incessante pela interatividade no fazer jornalístico (Squarisi, 2011), impulsionada pelas transformações ciberculturais, que tem influenciado diretamente aquelas pessoas responsáveis pela elaboração de conteúdos. O momento dialoga com Lemos (2002) quando o pesquisador afirma que a técnica desempenha papel fundamental na formação do homem, nesse caso, do jornalista.

Referências
FIRMINO, Fernando. Jornalismo móvel. Salvador: EDUFBA, 2015. Disponível em https://repositorio.ufba.br/ri/bitstream/ri/18003/1/jornalismo-movel-miolo-repo.pdf.

Manual de Redação e Estilo para Mídias Convergentes: Dad Squarisi. –São Paulo: Geração Editorial, 2011.

LEMOS, A. Cibercultura. Tecnologia e Vida Social na Cultura Contemporânea., Sulina, Porto Alegre., 2002.

SENNETT, Richard. O artífice. 2. ed. Rio de Janeiro: Record, 2009. 364 p.

POLYDORO. F. da S, COSTA. B. S; LÍBERO – São Paulo – v.17, n.34, p.89-98, jul./dez. de 2014 – A apropriação da estética do amador no cinema e no telejornal