Os problemas das mídias sociais

help“As mídias sociais deram o direito à fala a legiões de imbecis que, anteriormente, falavam só no bar, depois de uma taça de vinho, sem causar dano à coletividade. Diziam imediatamente a eles para calar a boca, enquanto agora eles têm o mesmo direito à fala que um ganhador do Prêmio Nobel.” A polêmica fala de Umberto Eco (1932 – 2016), autor italiano e pilar internacional de toda uma disciplina que marcou os estudos em Comunicação (a semiologia), foi dita após a cerimônia na Universidade de Turim na qual recebeu o título de doutor honoris causa em comunicação e cultura, em 2015. O autor de “O nome da rosa” (1980) já havia demonstrado seu descontentamento em relação às novas mídias outras vezes: em 2007, em entrevista para a Revista Época, afirmou que “os tablets são mais para entretenimento do que para estudo”, desprezando os e-books, ainda novidade no mercado editorial. Há certo conservadorismo e até mesmo algo elitista nesta posição (é de fato preciso ser um ganhador de um Nobel de Literatura para discutir romances?), mas a fala de Eco nos faz pensar nos problemas do uso corrente das mídias sociais, uma das mais proeminentes ferramentas de articulação e interação social na rede, e sua relação com o jornalismo móvel.

O que são mídias sociais?

Quando falamos de mídias sociais, falamos de ferramentas que servem ao compartilhamento e à criação colaborativa de informação dos mais diversos formatos. Blogs como este próprio, microblogs (como o Twitter e o Snapchat) e redes sociais (como o Orkut, o Facebook e o Google Plus) fazem parte deste universo, embora as classificações volta e meia se embaralhem. Garton, Haythornthwaite e Wellman (1997), citados por Raquel Recuero (2009, p. 15), definem as supracitadas redes sociais como uma rede de computadores que conecta uma rede de pessoas e organizações.

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O mensageiro do IRC, criado em 1988, com um design simples e um tanto rústico. Desenvolvido  em servidores na Universidade da Finlândia, o IRC foi um protocolo de comunicação e troca de arquivos muito importante nos anos 1990 (durante a Guerra do Golfo, em 1993, o IRC foi utilizado para divulgar notícias do Oriente Médio em tempo real). Ao fim do século, foi criado o mIRC, que possibilitava chats e conversas privadas, nas quais os usuários podiam se identificar com nicks e cores personalizados. (Imagem: Canal Tech)

Estas mídias podem se articular com o jornalismo móvel de várias maneiras: empresas jornalísticas podem se apropriar das redes para a realização de boletins ou debates (os debates da TV Folha, por exemplo, são transmitidos ao vivo pelo Facebook e costumam render bons números de visualizações, principalmente quando os convidados são personalidades polêmicas na web, como Sara Winter e Kim Kataguiri), as pessoas podem, independentes, noticiar acontecimentos in loco, fazendo, ou não, parte de uma organização informal, como no midialivrismo do Mídia Ninja etc.

Quem são os atores na rede?

Ao abordar a forte presença das representações de pessoalidades nas redes sociais (desconstruindo a concepção inicial de que, na internet, não é tão importante quem somos e onde estamos, mas o que dizemos), Recuero afirma que “é preciso colocar rostos e informações que geram individualidade e empatia na informação geralmente anônima do ciberespaço” (2009, p. 27). As redes sociais online marcam um tempo em que a anarquia e a liberdade já não são as características mais expressivas da rede, como se tinha anteriormente (hoje são os hacktivistas que defendem esta perspectiva).

Desde antes do que chamamos de redes sociais online há essa pessoalização da rede. O blog, cujo formato existe provavelmente desde 1997, por exemplo, é definido por Denise Schittine (2004, p. 60) como “uma adaptação virtual de um refúgio que o indivíduo já havia criado anteriormente para aumentar seu espaço privado”.

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Dirigido por David Fincher, A Rede Social (The Social Network, 2010) conta a história da origem do Facebook. No filme e na vida real, o site surgiu com o nome FaceMash, criado por Mark Zuckerberg com o algorítmo desenvolvido por Eduardo Saverin, com o intuito inicial de eleger as garotas mais atraentes de Harvard. Hoje, o Facebook é a mais popular das redes sociais online, reunindo mais de 1 bilhão de usuário ativos  pelo mundo. (Gif: Rebloggy)

Não parece uma definição muito diferente da concepção de redes sociais online mais recentes, como o Orkut e o Facebook, ambas criadas em 2004. Raquel Recuero põe em foco os atores sociais (ou melhor, as representações dos atores sociais), pessoas que atuam de forma a moldar as estruturas sociais, através da interação e da constituição dos laços sociais (2009, p. 25), pautando o permanente processo de construção e expressão de suas identidades no ciberespaço (p. 26).

O que são laços sociais?

Estes laços sociais, segundo Recuero, são formas mais institucionalizadas de conexão entre atores, constituídos no tempo e através da interação social (2009, p. 28). Eles podem ser associativos (mais fracos, definidos por uma interação reativa; aceitar uma solicitação de amizade no Facebook, por exemplo) ou dialógicos (mais fortes, definidos por uma interação mútua, como trocar scraps com alguém no Orkut).

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Como Umberto Eco, o escritor português José Saramago (1922 – 2010) também olhava desconfiado para as interações sociais mediadas pelo computador. “Os tais 140 caracteres reflectem algo que já conhecíamos: a tendência para o monossílabo como forma de comunicação. De degrau em degrau, vamos descemos até o grunhido”, disse, sobre o sucesso do Twitter, em entrevista para O Globo, em 2009. (Imagem: Arquivo O Globo)

É importante pensar nos laços sociais porque a maneira como eles são compreendidos pela internet, cada vez mais conduzida por algorítmos que vão se tornando mais complexos e sofisticados diariamente (a cada ano, o Google realiza aproximadamente 500 aprimoramentos no código do seu sistema, segundo matéria da Folha de S.Paulo de 2014), pois as redes sociais irão se dedicar a manutenção destes, buscando preservar suas ligações reais. Também nossas interações mais solitárias serão estudadas por códigos em toda a rede; nossas pesquisas no Google, nossas preferências musicais no Spotify, nossos likes e demais reações no Facebook.

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Apenas 20% das postagens dos amigos do usuário médio do Facebook chegam a ser exibidas em seu feed. (Infográfico: Filipe Rocha/Folhapress/2014)

 

Quais são os problemas nas interações mediadas pelo computador?

Cercado por nossas próprias preferências, acabamos por interagir numa comunidade virtual feita por e para nós próprios. Isso é prejudicial por vários motivos; ao não se deparar com opiniões divergentes, diferentes narrativas e pontos de vista deixam de dialogar, prejudicando o debate público em várias instâncias e relativizando o livre acesso à informação. Em entrevista à Revista Época, em agosto de 2012, o ativista digital americano Eli Pariser afirma que

Quando você lê uma revista ou liga a televisão, você tem uma ideia de qual é a linha editorial daquela publicação ou canal. O mesmo vale, mais ainda, quando você conversa pessoalmente com um amigo cujas opiniões políticas você conhece. Você sabe quais pontos de vista estão lá e quais não estão, e sabe onde encontrar os que ficaram de fora. No Google e no Facebook, nada é explícito. Você não sabe em que perfil de usuário os sites te enquadram nem em que informações se basearam para chegar àquela conclusão. Não é possível saber o que você está perdendo, que partes da internet estão fora de seu alcance. As informações desaparecem sem aviso. (PARISER, 2012)

Uma rede pouco neutra pode prejudicar o jornalismo na medida em que informações de inegável relevância são ocultadas para não ferir as preferências pessoais, políticas ou ideológicas do usuário da rede. A forma como as redes sociais online se configuram atualmente lembram, de certa forma, os perigos de uma história única, termo popularizado pela romancista e ativista nigeriana Chimamanda Adiche: na ausência do contraditório, toma-se a parte pelo todo e não se percebe as reais nuances e minúncias do mundo. O jornalismo tem muito a perder neste contexto, pois ele é, em essência, o contato com o contraditório, o embate de diferentes versões de uma mesma história, um espaço de disputa de perspectivas, opiniões, pontos de vista, narrativas.

 

 

Anexos:

Tweet de Vinícius Perez (@chinisalada)

 


Palestra de Eli Pariser no TED 2011 sobre os Filtros Bolha.

 


Palestra de Chimamanda Adichie no TED 2009 sobre O perigo da história única. A fala de Adichie trás uma ideia de enfrentamento dos valores dominantes de uma cultura transnacional através da literatura.

 

Referências:

SCHITTINE, Denise. Blog: comunicação e escrita íntima na internet. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004.

Recuero, R., Redes Sociais na Internet., Porto Alegre, Sulina, 2009. (Cap. 1)

http://www1.folha.uol.com.br/tec/2014/03/1432549-quem-decide-o-que-voce-ve-na-internet.shtml
<Acesso em 25 de agosto de 2016>

http://revistaepoca.globo.com/ideias/noticia/2012/08/internet-esconde-quem-discorda-de-voce.html
<Acesso em 25 de agosto de 2016 >

http://canaltech.com.br/materia/nostalgia/o-bom-e-velho-mirc-nao-morreu-112/ <Acesso em 26 de agosto de 2016>

 

O jornalismo móvel é virtual?

Desde o ano passado, a crise de refugiados na Europa tem atraído a atenção de diversos veículos de comunicação. Vários jornalistas foram enviados para os locais de conflitos para cobrir o fato. Muitos deles, utilizaram as redes sociais, imagens, textos e vídeos produzidos através de dispositivos móveis para isso.

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Griff Witte cobriu a viagem dos refugiados para a Europa Ocidental para o Washington Post e compartilhou no Twitter imagens e vídeos da fronteira Sérvia-Húngara

Pessoas de diversas partes do mundo podem ter acesso a essas informações a partir de um aparelho celular. As notícias são lidas, ouvidas, assistidas e compartilhadas por consumidores que podem estar distantes fisicamente do local de sua produção. Jornalistas também podem realizar entrevistas através de aplicativos como Skype e WhatsApp, sem ter contato físico com as fontes. Podem acessar arquivos, banco de dados, documentos antigos e locais distantes através do computador.

Estaria o jornalismo se tornando virtual? O jornalista móvel é virtual?

Relação com o espaço e com o tempo

Ao longo da história, diversas criações afetaram nossa relação com o espaço e com o tempo, principalmente reduzindo distâncias e modificando os conceitos de lentidão e rapidez. É, por exemplo, o caso do desenvolvimento do telégrafo no século XVIII e do avião no início do século XX, passando pelo telefone celular já às vésperas do século XXI.

A mobilidade sempre esteve presente nas redes de transporte, comunicação e de fluxos financeiros, segundo André Lemos. “As cidades e os processos midiáticos que lhe são correlatos e estruturantes, como o jornalismo e depois as mídias audiovisuais, são desde sempre fluxo, troca, deslocamento, desenraizamento e desterritorializações (das relações sociais, das informações e dos territórios)” (2007). Falaremos sobre desterritorialização mais à frente.

Dessa forma, ler notícias sobre locais onde não se está presente fisicamente é apenas mais uma modificação da relação com o espaço. Ler notícias muito recentes ou já antigas, uma modificação da relação com o tempo. Esse processo não surge exclusivamente por conta da internet ou das tecnologias móveis, apesar de ser uma forte característica desta nova forma de compreender e produzir notícias. “O jornalismo móvel se consolida como uma prática vinculada à expansão da mobilidade contemporânea” (Silva, 2015).

O virtual e o atual

Fernando Firmino da Silva, em seu livro “Jornalismo Móvel”, define o jornalismo móvel como a “utilização de tecnologias móveis digitais e de conexões de redes sem fio pelo repórter na prática jornalística contemporânea visando ao desenvolvimento das etapas de apuração, produção e distribuição de conteúdos do campo ou de transmissão ao vivo” (2015, p. 11).

Através dessa definição, entendemos que o jornalismo móvel surge como resposta à necessidade de fortalecer, ampliar, tornar mais dinâmicas as etapas de produção e consumo de notícias. Havia um problema, uma necessidade e chegamos a soluções.

Virtualizar significa, justamente, questionar, segundo Pierre Lévy, filósofo tunísio. Significa fazer algo atual se tornar viável para solucionar um problema, um estado de problematização. Nós, jornalistas, estamos no campo da virtualização quando nos questionamos de que modo podemos cobrir determinado fato: usaremos texto? Foto? Vídeo? Quando executamos a solução optada, partimos para o campo da atualização.

Também está atualizando uma notícia o leitor ao escolher consumi-la na tv ou no jornal impresso e produzir sentido ao fazê-lo. Consumir notícias através de aparelhos móveis é um novo modo de atualização.

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Relações entre o Potencial (possível), o Real, o Virtual e o Atual, segundo Pierre Lévy.
Fonte: http://www.ccuec.unicamp.br/revista/infotec/artigos/renato.html

Cabe aqui distinguir virtual de possível: possível é aquilo que já é real, faltando apenas sua existência; virtual é um “complexo problemático, o nó de tendências ou de forças que acompanha uma situação, um acontecimento, um objeto ou uma entidade qualquer, e que chama um processo de resolução, a atualização” (Lévy in Souza, 2007).

O real – provocação de mudanças na realidade e as novas formas de fazer e consumir notícias

O ciclo entre virtual e atual acontece o tempo todo e modifica a produção de espaço e de tempo, ou seja, alteram a realidade. Através da descoberta de uma questão geral (virtualização), podemos criar novas formas de fazer (solucionar, atualizar) algo e assim acontecem as mudanças.

Ao criar novas formas de fazer, muda-se também a própria forma de fazer. A atualização do problema provoca uma transformação de ideias que alimenta de volta o virtual. No caso do jornalismo móvel, os atos de produção, distribuição e consumo de notícias através de dispositivos móveis “complexifica a cultura jornalística com a incorporação de novas rotinas” (Silva, 2015).

“A redação móvel realiza-se através do aporte da infraestrutura de conexão sem fio (3G, 4G, Wi-Fi, WiMAX ou Bluetooth) e das tecnologias móveis digitais, portáteis e ubíquas (celular, smartphone, tablets, netbooks, gravadores, câmeras digitais e similares)” (Silva, 2015). Sendo assim, surgem novas funções e novas rotinas na prática jornalística e no consumo de notícias.

Redes e território informacional – a qualquer hora e em qualquer lugar

As tecnologias móveis surgem como “mediadoras da mobilidade informacional e física e o jornalismo na apropriação do território informacional para condução do fluxo de informações” (Silva, 2015). O território informacional cobre as cidades com as redes de conexão sem fio que formam um espaço de tráfego de dados.

Essa nova infraestrutura de redes e dispositivos afeta as formas de lidar com os dados, como textos, fotos e vídeos (Silva, 2015). Isso permite que surjam, como já foi dito, novas formas de produzir, distribuir e consumir notícias através de imagens, gráficos, vídeos, áudio etc.

Desterritorialização

Segundo Pierre Lévy, quando uma pessoa, uma coletividade, um ato, uma informação se virtualizam, eles se tornam “não-presentes” (1996, p. 9), ou seja, se desterritorializam, tanto do espaço físico, geográfico, quanto do tempo. É também segundo Lévy que a invenção de novas velocidades e temporalidades está imbricada no processo de virtualização. Desterritorializar, tornar empresas, organizações e modos inteiros de produção alheios às questões relativas à geografia implica na abertura de novos meios de interação e ritmo das cronologias inéditas (p. 9).

Na perspectiva do jornalismo móvel, podemos pensar nas novas formas de cobertura dos eventos; com uma “redação digital” torna-se possível dinamizar a narração dos fatos, criar novas temporalidades na nossa relação com a comunicação, ajudando a alterar a realidade social (p. 9).

Conclusão

A partir do que foi falado neste post, podemos retornar às perguntas feitas no início: estaria o jornalismo se tornando virtual? Não. O jornalismo hoje é tão real quanto sempre foi. Mudam-se apenas a forma de fazer, as práticas jornalísticas. Podemos falar em jornalismo eletrônico ou através de meios eletrônicos móveis.

O jornalista móvel é virtual? Também não. Ele é real e utiliza diversas ferramentas eletrônicas para tornar seu trabalho possível.

Devemos tomar cuidado ao usar a palavra virtual para significar eletrônico. Virtualizar significa questionar. “De que forma posso noticiar esse acontecimento?”. Atualizar é colocar a solução em prática como, por exemplo, através de dispositivos móveis.

Virtual e atual acontecem ciclicamente na sociedade, questionando e criando novas práticas, provocando mudanças na nossa relação com o espaço e com o tempo.

Referências

LÉVY, PIERRE. 1. O que é a virtualização?. In: ____. O que é o virtual?. São Paulo: Editora 34, 1996. p. 5-12.

FIRMINO, Fernando. Jornalismo móvel. Salvador: EDUFBA, 2015. Disponível em https://repositorio.ufba.br/ri/bitstream/ri/18003/1/jornalismo-movel-miolo-repo.pdf

SOUZA, RENATO ROCHA. O que é, realmente, o virtual?, in Infotec Unicamp, São Paulo, 2007. Disponível em http://www.ccuec.unicamp.br/revista/infotec/artigos/renato.html

LEMOS, ANDRÉ. Cidade e Mobilidade. Telefones Celulares, funções pós-massivas e territórios informacionais., in Matrizes, Revista do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação., USP, ano 1, n.1, São Paulo, 2007, ISSN 1982-2073, pp.121-137. Disponível em http://www.matrizes.usp.br/index.php/matrizes/article/view/29/43