A influência dos dispositivos móveis no jornalismo/jornalistas tradicionais

Com a massificação dos dispositivos inteligentes de comunicação móvel, os veículos de comunicação tradicionais passaram a se utilizar dessas novas plataformas para difusão dos seus conteúdos. Assim, vêm surgindo uma série de ferramentas (aplicativos, sobretudo) com o intuito de levar as rádios, TVs e jornais para dentro dos tablets e smarthphones.

Apesar das plataformas móveis servirem originalmente para o escoamento do conteúdo produzido nas mídias clássicas, esses novos dispositivos têm influenciado também a forma de se fazer jornalismo. Não raramente, profissionais de imprensa compartilham conteúdos jornalísticos via smartphone sem que o material passe pelo banho de edição de outrora (Polydoro e Costa, 2014).

Como descreveu Firmino (2015), a apropriação do aparato permitiu a expansão das iniciativas de emissão diretamente dos lugares dos acontecimentos. O afã em compartilhar notícias se dê, talvez, pelo fato de atualmente a funcionalidade sobrepor à qualidade (Sennett, 2009), uma vez que a rapidez na difusão das notícias tornou-se, mais do que nunca, fundamental para o sucesso econômico do veículo.

A influência dos dispositivos móveis na mídia tradicional se faz presente ainda em reportagens que, mesmo gravadas com câmeras de TV tradicionais, se utilizam de movimentos ao estilo “self”.

“Nesta nova e sempre mutante economia da atenção , vídeos produzidos de forma não profissionais, por vezes agudamente rudimentares, expostos e exibidos no Youtube ou em redes sociais como o Facebook, disputam audiência com os programas de televisão, o cinema e outros produtos audiovisuais institucionalizados – que por sua vez, mimetizam a estética de tais imagens ou apropriam-se dos próprios vídeos como matéria-prima na composição da narrativa”, (Polydoro e Costa, 2014).

Quem não se lembra do vídeo “Senhora”, onde uma repórter da Globo sai correndo com o seu câmera atrás de uma servidora pública fantasma. Além disso, alguns apresentadores se declaram ávidos usuários dos smartphones no ambiente de trabalho.

Veja vídeo:

Caso Boechat
No dia 8 de julho deste ano, o Jornal da Band apresentou a alternativa, que entrou no ar na segunda-feira seguinte, de assistir ao programa pela rede social Facebook. A matéria fez questão de ressaltar a possibilidade dos espectadores interagirem com os apresentadores através dos comentários enviados por tablets e celulares.

Ao voltar para a bancada, o âncora Ricardo Boechat revelou que a novidade implantada pelo veículo apenas tornaria legítimo algo que ele e a companheira de bancada Paloma Tocci já faziam de modo “clandestino”. O bem humorado apresentador tornou público que costuma usar o smartphone enquanto apresenta o jornal para responder comentários de espectadores.

Clique AQUI para assistir a matéria

“A chegada do Jornal da Band ao Facebook vai dar escada de milhões a algo que nós dois [aponta para Paloma Tocci] já praticamos aqui na bancada meio que indisciplinadamente. Ambos trazemos os nossos celulares [mostram os aparelhos] para a bancada do Jornal da Band. Não só trazemos como consultamos as mensagens que nos chegam e também respondemos. Ou seja, é a ampliação de uma prática que já vinha sendo feita aqui, meio que clandestinamente e agora chega ao Facebook para que você possa interagir conosco em uma escala muito maior”, disse Boechat.

Para Squarisi (2011), a melhor maneira de apresentar um produto jornalístico é aquela que seja mais atraente e adequada ao receptor. A pesquisadora destaca ainda a importância dos veículos buscarem uma interação hipermídia. O Jornal da Band ao migrar para o Facebook deu um passo nesse sentido.

Além do que, o jornal estreita ainda os laços com o seu receptor e faz dele agente colaborativo da elaboração do produto; colaboração esta que vem sendo crucial para o desenvolvimento dos aparatos e técnicas da comunicação, como foi o caso da evolução dos aparelhos de telefones celular (Sennet, 2009).

O sapato de André Rizek
O noticiário esportivo Redação Sportv é outro exemplo de como o smartphone tem influenciado jornalismo e jornalista. O apresentador André Rizek durante quase todo o programa está municiado do seu aparelho celular. Esse, no entanto, não é um ato de contravenção e sim um elemento do programa que tem na interação direta com o público, sobretudo via Twitter, uma das suas principais armas.

Em muitos momentos, Rizek emparelha o conteúdo da tela do smartphone com a imagem exibida pela TV. De modo que o espectador passa a compartilhar diretamente com o âncora o que se passa na intimidade do celular do apresentador, aproximando o estúdio da sala de casa do receptor.

rizek

André Rizek durante o Redação Sportv (Foto: Reprodução)

Tamanha é a intimidade e a velocidade na troca de informação entre Rizek e seu público que, durante o programa do dia 18 de abril deste ano, na saída para o intervalo comercial, a câmera flagrou o tênis do apresentador, sugerindo que ele estivesse descalço. Imediatamente, choveram Tweets sobre o pé do Rizek e, assim que o programa voltou ao ar, ele se desculpou pela situação inusitada e justificou o embaraço.

“Estou com um corte (no pé) e não estou conseguindo calçar o sapato, então deixei o sapato ali a parte, mas achei que ninguém iria perceber. Mas eu fiquei impressionado com a quantidade das pessoas que conseguiu perceber que estou sem o sapato. Foi mal, galera”, disse.

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Conclusão
O que se percebe no momento é uma busca incessante pela interatividade no fazer jornalístico (Squarisi, 2011), impulsionada pelas transformações ciberculturais, que tem influenciado diretamente aquelas pessoas responsáveis pela elaboração de conteúdos. O momento dialoga com Lemos (2002) quando o pesquisador afirma que a técnica desempenha papel fundamental na formação do homem, nesse caso, do jornalista.

Referências
FIRMINO, Fernando. Jornalismo móvel. Salvador: EDUFBA, 2015. Disponível em https://repositorio.ufba.br/ri/bitstream/ri/18003/1/jornalismo-movel-miolo-repo.pdf.

Manual de Redação e Estilo para Mídias Convergentes: Dad Squarisi. –São Paulo: Geração Editorial, 2011.

LEMOS, A. Cibercultura. Tecnologia e Vida Social na Cultura Contemporânea., Sulina, Porto Alegre., 2002.

SENNETT, Richard. O artífice. 2. ed. Rio de Janeiro: Record, 2009. 364 p.

POLYDORO. F. da S, COSTA. B. S; LÍBERO – São Paulo – v.17, n.34, p.89-98, jul./dez. de 2014 – A apropriação da estética do amador no cinema e no telejornal

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